II Colóquio Internacional
A crisi da poesia no Brasil, na França, na Europa e em outras latitudes
COLÓQUIO INTERNACIONAL: POESIA, FRANÇA E BAHIA
Uma série de fatores contribui para que um encontro internacional de especialistas se torne um momento significativo em nossas vidas: o tema geral e os temas específicos, o número de pessoas que já conhecemos e reencontramos, o local, a expectativa de novos contatos e troca de idéias, o passeio turístico que o evento costuma oferecer.
O II Colóquio Internacional "A crise da poesia no Brasil, na França, na Europa e em outras latitudes / La crise de la póesie au Brésil, au France, en Europe et en d'autres latitudes", que ocorreu de 3 a 5 de setembro de 2003, no anfiteatro da Universidade Estadual de Feira de Santana, Bahia, pautou-se pela diversidade de temas, pela quantidade de países participantes, e pelo diálogo aberto entre conferencistas e alunos.
Promovido pela Universidade Estadual de Feira de Santana (Brasil) e pela Université d'Artois (França), o II Colóquio contou com poetas e professores universitários do Brasil, França, Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Bulgária, Alemanha, Hungria e Espanha, e todos trataram das mais diferentes facetas da poesia contemporânea dos seus países.
A comissão organizadora foi composta por: Alain Vuillemin, Allain Quenette, Aleilton Fonseca, Antonio Brasileiro, Celina Scheinowitz, Évila de Oliveira, Phillipe Bootz, Roberval Pereyr e Roselene Melo. Representando o Brasil, compareceram participantes da Bahia, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os coordenadores das sessões foram: Celina Scheinowitz, Aleilton Fonseca, Rosana Ribeiro Patrício, Alain Vuillemin, Maria Theresa Abelha Alves, Eric Maheu, Humberto de Oliveira, Francisco Ferreira de Lima e Antonio Brasileiro Borges.
Uma grande quantidade de alunos lotou o anfiteatro durante as apresentações. Vale destacar um fato bastante meritório: a atenção geral dos participantes durante praticamente todo o colóquio, mesmo com falas um pouco longas, expositivas, muitas vezes acrescidas de traduções simultâneas e com poucos recursos audiovisuais.
Na abertura, na noite de 3 de setembro, depois das boas-vindas da vice-reitora Profa. Évila de Oliveira Reis Santana, e do representante da Université d'Artois, Prof. Alain Vuillemin, a conferência inaugural – A situação da poesia contemporânea – foi o tema do poeta e professor Antonio Brasileiro.
O primeiro dia de colóquio, 4 de setembro, pautou-se por uma variedade significativa: Alexei Bueno (RJ) falou sobre poesia e civilização de massa como fragmentos de um conflito; Roberval Pereyr (UEFS, Brasil) abordou poesia e realidade social; Dominique Stoenesco (Lycée L.- Walton, Chanpigny, França) discorreu sobre os poetas portugueses imigrantes ou exilados na França, dos anos 1960-70 até hoje; Nigel Alan Hunter (UEFS, Brasil), num inglês elegante muito bem articulado, seguido de uma tradução apresentada em retroprojetor, falou de di-visão, di-versidade como um relato parcial da poesia inglesa atual. A primeira sessão antes do almoço foi encerrada com os aspectos da poesia brasileira contemporânea, a cargo de Aleilton Fonseca (UEFS, Brasil).
Novos aspectos da poesia contemporânea foram apresentados na segunda parte do dia 4 de setembro: "À margem e além da crise: a poesia afro-brasileira", por Moema Augel, da Universidade de Bielefeld, na Alemanha; "A poesia de Senghor e a África", a cargo de Celina Scheinowitz, da UEFS; "A poesia de resistência: alguns aspectos no Brasil e na França", por Évila de Oliveira Reis Santana (UEFS); "Língua francesa e literatura centro-européia: as traduções de poetas búlgaros durante a guerra fria", a cargo de Eléna Gueórguiéva-Steenhoute (Certel, Artois, França); "De uma arte poética ao fazer poético. Do fazedor de imagens ao fazer de miragens: o poeta das "Iluminações" no "Alvorecer" da poesia nova", a cargo de Jean-Marc Bonneaud (UEFS); "Orfeu e seus gatos", por Michel Riaudel, da Université Paris X, Nanterre, França, e "Poesia e rebeldia: Ana Cristina César", por Rubens Alves Pereira (UEFS).
O dia 5 começou com o sublime e não-lugar do poeta e da poesia, a cargo de Sébastien Joachin (UFPE, Brasil), seguido por uma poética da alteridade, num breve esboço de uma estética da diversidade, por Humberto Oliveira. Alain Vuillemin abordou a noção de "escrileitura" na poesia eletrônica; e Philippe Boisnard (Lycée, Arras, França) falou sobre poesia e mídia.
Philippe Bootz (Université de Versailles, França) apresentou aspectos da poesia eletrônica na França; Chris Funkhouser (New Jersey Institute of Technology, EUA) tratou sobre a poesia hipermídia de língua inglesa; Jenõ Farkas (Universidade ELTE de Budapeste, Hungria) apresentou aspectos da modernidade e pesquisa na poesia húngara contemporânea; e Jorge Luiz Antonio (PUC SP, Brasil) discorreu sobre alguns exemplos da poesia visual e eletrônica no Brasil.
Joan Elies Adell Pitarch (Universitat Oberta de Catalunya, Espanha) tratou da poesia catalã em tempos de crise, as poéticas despojadas; Denise Maria Gurgel Lavallée (UNEB) discorreu sobre a poesia em momentos de crise: Quebec e Brasil reescrevem a liberdade; Cid Seixas Fraga Filho (UFBA) dissertou sobre o percurso da poesia à etnologia na obra de Ëdison Carneiro; Roselene Guimarães (UEFS) fez uma abordagem temática da obra de Myriam Fraga (barcos, bestas e bordados), e Raimunda Bedasee (UFBA/UEFS) tratou dos poetas novos da Bahia, tema que foi aplaudido pelos estudantes.
Poetas e professores apresentaram seus pontos de vista sobre a poesia contemporânea. De todos os momentos, vale destacar a última sessão – depoimento e leitura de poesia –, que comprovou o gosto geral pela poesia que caracteriza o povo baiano: além da apresentação dos poetas convidados – Alexei Bueno, Reynaldo Valinho Alvarez, Myriam Fraga, Roberval Pereyr, Ruy Espinheira Filho e Antonio Brasileiro – alguns alunos aproveitaram o ensejo para também ler poemas.
Houve o predomínio da língua portuguesa e francesa, além de palestras em inglês e espanhol. Dentre os franceses, merecem destaque: o português fluente e elegante do Prof. Michel Riaudel, e o português sem sotaque do Prof. Dominique Stoenesco, que foi um dos que mais fizeram traduções simultâneas, juntamente com a Profa. Celina Scheinowitz e Jean Marc-Bonneaud.
No corredor que dá acesso ao anfiteatro, duas livrarias ofereceram uma quantidade significativa de livros e revistas para os membros do colóquio. O evento proporcionou aos conferencistas uma viagem ao Parque Estadual de Canudos, unindo passado e presente, a Revolução de Canudos e a obra imortal "Os Sertões", marco fundamental da literatura genuinamente brasileira.
A reprodução da tela "Barco", de Nanja, no prospecto do II Colóquio Internacional, não foi só uma ilustração para o evento, mas simbolicamente foi o barco que nos convidou à leitura e à reflexão sobre os diferentes tipos de poesia que devem alimentar o nosso dia-a-dia fazendo da crise, não só da poesia como da existência, um motivo para seguir adiante, para crescermos como pessoas e como cidadãos brasileiros.
Jorge Luiz Antonio
Professor, pesquisador, poeta, autor de
Cores, forma, luz, movimento: a poesia de Cesário Verde
(SP, Musa / FAPESP, 2002). |