Do texto ao hipertexto

Adair de Aguiar Neitzel
Pesquisadora em literatura em meio eletrônico
UFSC /CNPq/SED-SC

http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/literatura/hipertexto.html


Hoje o saber se mostra a nós com um perfil volátil, fluido. As competências que adquirimos no decorrer de nossa formação não são mais suficientes para nos garantir uma boa NUPILL — Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística da UFSC, sob a coordenação do professor Alckmar Luiz dos Santos — estabelece-se como um espaço destinado à leitura e discussão da produção literária de suporte informatizado, pesquisando como o hipertexto pode contribuir para aumentar as práticas literárias.
A introdução do computador no ambiente educacional, mesmo no ambiente universitário, ainda causa estranhamento e muitos se mantém num verdadeiro ostracismo, numa recusa cega à tecnologia. Essa recusa nos encaminha para duas indagações iniciais: não será a internet mais um gueto do que uma "aldeia global"? quem é o usuário da rede e para que fim a utiliza? Numa pesquisa direcionada aos alunos da graduação do curso de Letras da UFSC, observei que, apesar de todos poderem ter acesso ao laboratório de informática e usufruir dos benefícios da tecnologia, poucos eram os que a empregaram como ferramenta de apoio às suas pesquisas. A maioria também não utilizava o correio eletrônico, apesar de terem livre acesso para fazê-lo. Diante dessa situação, o prof. Alckmar Luiz dos Santos oferece a disciplina optativa: Letras e Informática, inserida como uma das atividades do NUPILL, com o objetivo de se introduzir noções básicas de informática aplicada à Literatura, em suas diversas vertentes, principalmente no que diz respeito aos hipertextos e à leitura/produção de textos literários em computadores e em redes.

Apesar de constatarmos que muitos se mostram hostis aos meios eletrônicos, LÉVY nos fala de um "inexistente impacto da tecnologia". Uma colocação coerente se nos lançarmos numa empreitada de perspectiva diacrônica, historiográfico-evolutiva, que pode desmitificar a aura que se sobrepôs às modernas tecnologias. Elas, principalmente a Samuel Taylor Coleridge, que em 1849 escreve seu Tratado sobre Método esboçando os princípios para organizar todo conhecimento humano; Vannevar Bush com o ensaio "As We May Think", escrito em 1945, que é reconhecido hoje como o primeiro ensaio que traça os princípios e funções da memória da máquina (MEMEX); e Ted Nelson que em 1978 traça com o projeto XANADU — uma visão do hipertexto eletrônico.

Nessa constante marcha em que os homens, principalmente a partir da Renascença, se encaminharam para um "desacordo com o tempo presente"(JAUSS apud CAMPOS), muitos intelectuais buscaram deslizar do valor ideal de perfeição estabelecido em sua época. Esse momento de "desacordo", de transitoriedade foi vivido nas artes, por exemplo, no período da produção brasileira barroca, cuja "procura do movimento e da ilusão faz com que as massas plásticas barrocas nunca permitam uma visão privilegiada, frontal, definida, mas induzam o observador a deslocar-se continuamente para ver a obra sob aspectos sempre novos, como se ela estivesse em contínua mutação"(ECO).

Na literatura, Baudelaire foi um dos escritores que buscou viver esse desacordo ao relativizar, na construção de sua poesia, o conceito de Belo. Ele "na culminação desse processo (um processo que retoma a oposição 'belo/universal'/ 'belo relativo' para acentuar, nessa relativização do belo, um ideal de novidade em constante mutação), acaba por encontrar no "transitório" (cujo paradigma é a moda) o critério distintivo da modernidade"(CAMPOS).

Nessa mesma esteira encontra-se Mallarmé que aspirou a uma escritura dissociada do paradigma de sua época, que desse ao escritor e ao leitor mais fluidez na produção e leitura. Ele efetuou experiências estéticas organizando um jogo tipográfico ao qual se dedicou em Coup des deux, tentando envolver o texto poético num halo de indeterminação. Ele também cometeu a façanha utópica de idealizar um livro organizado de forma aberta, com mobilidade espacial que institui um jogo, uma obra inacabada. Mallarmé trabalhou nessa obra boa parte de sua vida, e nunca a terminou. Umberto Eco a coloca como um perfeito exemplo de obra em movimento. O Livre apresentaria uma estrutura dinâmica, suas páginas não teriam uma ordem fixa, as folhas estariam soltas, intercambiáveis, organizadas em fascículos, mas que mesmo com o deslocamento das folhas, mantivessem uma coerência discursiva nas combinações, o que conseguiria através das técnicas matemáticas modernas.

A forma de composição material do hipertexto eletrônico gera essa liberdade idealizada por Mallarmé, uma vez que ele apresenta um campo vasto de possibilidades de leitura e escrita, um tipo ideal de liberdade na escritura que a humanidade desejou sempre obter com o texto impresso e as artes em geral. O fato de podermos iniciar e acabar em diferentes pontos a cada leitura, nos coloca frente a um labirinto. E porque não dizer um labirinto borgiano como aquele que encontramos na Biblioteca de Babel, nos Caminhos que se bifurcam, e em tantos outros contos de Borges, de grandes variações interpretativas, cujo conteúdo nunca se encontra encerrado, definido, mas foge de uma direção estrutural comum. Eles são organizados de forma plurissignificativa, "manifestando riqueza de aspectos e ressonâncias"(ECO), instaurando uma leitura incômoda porque nunca é definitiva, mas uma obra inesgotável e aberta.

Poderíamos continuar ainda as exemplificações citando O Processo de Kafka, iniciado em 1914, início da 1ª Guerra Mundial e abandonado definitivamente em 1915. Essa obra suscitou muitas exclamações em virtude do desmantelamento de sua ordem formal. Além de ser um fragmento, obra inacabada, ela apresenta confusões cronológicas, o que leva muitos a acreditarem que a disposição de seus capítulos não foi predefinida pelo escritor. Cito, ainda, Ulisses de James Joyce — de difícil penetração onde várias raízes diferentes se combinam, de modo que, uma palavra apresente a ambigüidade que essa raiz encerra — ou ainda Catatau de Leminski. A recorrência a essas obras é feita com intuito de assinalar que o texto impresso também nos possibilita vôos semelhantes ao do hipertexto eletrônico. Este é aqui entendido como a atualização de uma vontade, de uma idéia, de uma aspiração de expandir os limites que cercearam a produção e o conhecimento humano.

A construção dinâmica do texto impresso à moda de Mallarmé, Joyce, Leminski, Kafka, Borges nos faz pensar que a arte de escrita não linear já está entre nós há muito tempo; "a imaginação, a memória, o conhecimento, a religião são vetores da virtualização que nos fizeram abandonar a presença muito antes da informatização e das redes digitais"( LÉVY, 1996). É possível entrever no hipertexto eletrônico a possibilidade de obra aberta preconizada também por Eco, que instiga a temática da criação, ou ainda os "textos escrevíveis" anunciados por Barthes. Este afirma que o texto ideal é aquele que apresenta redes que são "múltiplas e se entrelaçam, sem que nenhuma possa dominar as outras", um texto que oferece "uma galáxia de significantes, não uma estrutura de significados; não tem início; é reversível; nele penetramos por diversas entradas, sem que nenhuma possa ser considerada principal."

Assim, o hipertexto pode ser "visto e olhado" não somente a partir do meio eletrônico, mas numa perspectiva muito mais ampla. Tracejo uma rede de relações prováveis, mas não inesgotáveis, entre o hipertexto eletrônico e o texto impresso à luz do estruturalismo, pós-estruturalismo e da estética teórica contemporânea. Pensar a tecnologia ao observar um texto impresso nem sempre é facilmente aceitável, ou classificar o uso do velho papiro Egípcio como exemplo de tecnologia de escrita, como o faz Snyder. Entretanto, assim como a imprensa mudou a tecnologia de escrita em pergaminhos da Idade Média, não podemos negar, que o hipertexto eletrônico, a cibercultura traz não só inovações à teoria do texto como vislumbra, com a interatividade, o aparecimento de novos gêneros .

Essa sua forma revolucionária (principalmente se pensarmos na velocidade com que nos movimentamos de um site ao outro, sem caminhos pré-estabelecidos) coloca para muitos o hipertexto eletrônico literário como um "experimentalismo literário", uma nova modalidade de criação artística e literária. Pedro Barbosa afirma que a poesia animada por computador, a literatura generativa e a hiperficção delineiam três grandes linhas, gêneros ou tendências dessa nova criação textual. Uma proposição que nos remete à célebre frase de Maiakóvski, mote tomado por empréstimo pelos modernistas e concretistas: "Sem forma revolucionária, não há arte revolucionária."

O hipertexto eletrônico desencadeou um outro processo de leitura e escritura ampliando, no mínimo, nosso entendimento dos termos texto, autor e leitor. O texto se encontra desterritorializado pelo seus dispositivos hipertextuais: "fizeram emergir um texto sem fronteiras nítidas, sem interioridade definível. (...) O texto é posto em movimento, envolvido em um fluxo, vetorizado, metamórfico. (...) Perdendo sua afinidade com as idéias imutáveis que supostamente dominariam o mundo sensível, o texto torna-se análogo ao universo de processo ao qual se mistura"(LÉVY).

O texto perde, assim, sua identidade singular nessa circunvolução da palavra. A facilidade que a rede oferece ao usuário na divulgação de sua produção, através da mediação de suportes magnéticos como o disquete ou o CD-ROM, ou através da rede, bem como, a estrutura dinâmica do hipertexto eletrônico modifica as posições autor/leitor. A produção e recepção da mensagem possui uma modalidade interativa imediata que o texto impresso não oferece. O leitor passa a escritor e vice-versa, diluindo-se as fronteiras entre quem escreve e quem lê. Não se configura um sistema unilateral, cada usuário é um autor, leitor e um editor em potencial. Essa passagem, essa fractalização das posições que cada um vinha assumindo diante do objeto textual configura o "efeito moebius."

Essa prontidão que encontramos para lançar um texto à rede situa o escritor-leitor numa posição de paridade com o cânone, com relação ao mercado editorial. A indústria da impressão funciona como um censor que passa seu crivo aos textos impressos classificando-os, tornando-os publicáveis ou não, facilitando ou dificuldade a circulação da mensagem. Esse processo de seleção, pelo qual passam os textos impressos, configura um direito de propriedade sobre a informação que não encontramos no meio eletrônico. Neste, o conhecimento é mais facilmente sociabilizado e é a qualidade dos textos que vai legitimar a fala do expositor, e não o mercado editorial que lhe outorga direitos de divulgar ou não sua produção.

A ausência do crivo editorial bem como do pagamento de direitos autorais clássicos tornou-se um álibi para os que custam a aceitar o espaço eletrônico como um lugar de publicação legítimo. A desculpa de que "muita coisa de pouca qualidade se encontra na rede", em virtude da inexistência de um código de censura, vem desmerecer a produção que lá se encontra, e demarca uma crise de credibilidade. Poucos apercebem-se, que, também o mercado editorial da impressão, mesmo com seus mecanismos de controle, dá vazão a muita produção inócua.

Essa crise de credibilidade no meio eletrônico se afigura, entre outros motivos, pela necessidade de uma nova postura frente ao saber — que hoje se encontra mais volátil e em constante mutação —, e requer uma educação icônica. Conforme Snyder, o escritor internalizou a crença de que a informação verbal é mais válida do que a não verbal, que os elementos não verbais são utilizados por publicitários, desenhistas e não é responsabilidade dos escritores.

Penso que uma das muitas razões desse estranhamento do usuário (ou usuário em potencial) diante do hipertexto literário eletrônico, que rejeita o ecrã e faz apologia ao livro impresso, seja o controle que o leitor detém do livro. Este é bem maior do que aquele controle que ele possui do texto em meio eletrônico. Um livro impresso tem uma ubiqüidade que dá ao autor certa autoridade. Suas idéias parecem ali estar para eternizar um dado momento e canonizar seu escritor. Além disso, o usuário sente-se bastante impotente frente à máquina; quando ele está diante do ecrã necessita de um decodificador dos códigos informáticos: o computador. Essa dependência da máquina para traduzir os sinais alfabéticos o coloca numa esfera de subordinação que não acontece perante o livro. Tudo isso contribui para aumentar a resistência a essa nova forma de produção literária. Minha intenção não é de alimentar a antiga querela entre os antigos (apocalípticos) e os modernos (integrados), mas instigar reflexões que nos encaminhem para um possível equilíbrio.

Todo esse percurso efetuado até aqui, foi proposto também com o intuito de repensar a proposição de Lévy, de que a tecnologia não nos é estrangeira, ela vem acompanhando a humanidade em seu longo percurso de construção do conhecimento, de amadurecimento, por isso o "inexistente impacto" desta. O hipertexto eletrônico pode ser visto como a atualização de um processo global que se iniciou muito antes da máquina existir materialmente:

"No que se refere ao aspecto espacial do hipertexto, podemos dizer que ele não constitui, de modo algum, novidade absoluta. Ele é, na verdade, o desaguadouro de toda uma tradição literária que remonta a vários séculos. Se nos restringirmos apenas ao período compreendido do Renascimento até os dias de hoje, podemos pensar em toda a literatura de inspiração esotérica dos séculos XVI e XII, cujas criações apresentavam alto teor de poeticidade em virtude da complicação visual e imagética de seus textos. Dando um salto para o século XX (e deixando de analisar mais de perto toda a tradição de acrósticos, divisas, emblemas e rébus da literatura ocidental, ou os hai-kais da tradição oriental), podemos pensar no Concretismo brasileiro do século XX, cuja criação poética apostava justamente na quebra do espaço bidimensional da folha de papel e do verso tradicional, incorporando elementos das artes gráficas e da propaganda"(LUIZ DOS SANTOS).

Afirmar que o hipertexto não constitui novidade absoluta não significa a inexistência de uma certa hostilização do público com relação `a tecnologia. O "elemento novo" da concepção das modernas tecnologias está para o século XX como o "elemento novo" da concepção de progresso e moderno estava para o público renascentista.

Lévy (1993) situa muito bem o meio eletrônico frente aos outros meios de comunicação: "a sucessão da oralidade, da escrita e da informática como modos fundamentais de gestão social do conhecimento não se dá por simples substituição, mas antes por exemplificação e deslocamento de centros de gravidade." Estamos tão embebidos na galáxia de Gutenberg que não nos damos conta das diversas dificuldades que foram enfrentadas pelo homem na luta pela popularização da escrita. Durante séculos esta foi privilégio de poucos, a alfabetização era restrita a grupos eclesiásticos e a nobres. Seu nascimento deu-se num ambiente de violenta discriminação, ela tornou-se privilégio de determinada casta, somente a alguns era permitido o seu acesso e exercício. Os poucos que a dominavam controlavam os muitos que a ignoravam. A história comprova que nenhuma tecnologia veio para usurpar o espaço da outra. Todas convivem pacificamente, tendo cada uma seu público e sendo utilizadas em situações diversas, conforme a necessidade do indivíduo.

Podemos observar que as tecnologias mais avançadas geralmente absorvem as conquistas das tecnologias anteriores, assim como aconteceu com o cinema cujo desenvolvimento estava respaldado na foto. O hipertexto eletrônico pode ser uma leitura muito familiar se nós o relacionarmos também com as notas de rodapé, as revistas e as enciclopédias. Essas últimas permitem um movimento sem seguir nenhuma seqüência específica. A diferença básica seria que no hipertexto uma nota pode ser maior que o texto original e dela você opta por voltar ao texto inicial ou perder-se nas "malhas das letras" eletrônicas. Além disso, a velocidade faz a diferença. Tudo acontece mais rapidamente e essa expansão da informação leva muitos a se preocuparem com essa "hiperinflação informativa".

Fantasmas são erigidos e assim como muitos pregavam na Idade Média que a escrita iria substituir a tradição oral, desfiando um rosário de lamentações e profecias sobre um possível processo cultural catastrófico, temos, atualmente, um grupo que não só resiste ao hipertexto em meio eletrônico por receio de que este substitua o livro — cuja tradição se encontra em nossa cultura ocidental já consolidada—, como um outro grupo do qual Baudrillard e Virilio são representantes. Eles apregoam um processo cultural catastrófico similar, argumentando que "estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido" (BAUDRILLARD), o que acarretará uma deflação do sentido, uma implosão dos conteúdos.

Numa análise semiótica, nos convencemos de que existem diferenças macroscópicas entre o hipertexto eletrônico e o texto impresso, não hesitamos em afirmar que o hipertexto transgride as leis da teoria do texto e arrolamos suas diferenças. Ele é um meio de informação que existe somente on-line no computador, dispõe diferentes entradas e saídas, verdadeiras trilhas aos usuários, sua estrutura é formada por blocos que se unem e têm passagem através de links, possui disposição não linear, podendo ser construído com sons, gráficos, animações, vídeo e realidade virtual. E as ligações que fazemos de uma homepage a outra dão passagem a um universo que nem sempre se encontra relacionado ao tema que pesquisamos.

Enfim, de todas essas características, é a velocidade, a rapidez da passagem, como já afirmei — quando temos um provedor eficiente — que encerra a maior diferença entre o hipertexto literário eletrônico e o texto impresso. Atualmente o complexo informacional moderno, especificamente a

É necessário questionar qual é o lugar que nosso objeto de estudo ocupa no contexto em que vivemos, qual seu papel histórico e social, quais são as regras de seu funcionamento e suas especificidades, qual a amplitude dessa nova tecnologia no contexto social. A Internet assedia a todos com o mesmo poder de persuasão dos outros media, da televisão, por exemplo? A indústria (marginal e oficial) que abastece esse mercado informacional, com seus produtos cada vez mais atualizados e sedutores (desde revistas, CD-ROM à softwares e hardwares), não enfrenta resistências por parte do público que ingere avidamente esses produtos. Será que "todas as mensagens dos media funcionam de maneira semelhante: nem informação nem comunicação, mas referendo, teste perpétuo, resposta circular, verificação do código?"(BAUDRILLARD) .

Estará a informática efetuando um cerceamento da visão criadora do homem como o fez a televisão e o cinema hollywoodiano? Parece que a questão central não é mais sobre o que saber, mas qual a velocidade em que chega esse saber em nossas telas. Isso pode gerar não só uma "poluição informativa" como uma cultura artificial, de momento. Vemo-nos diante do mesmo problema enfrentado com o advento da televisão e do cinema: a rapidez das informações na sua generalidade tornam o espectador passivo, um receptáculo. É mais importante conhecer os sites rapidamente, pular de um para o outro do que se deter em poucos minuciosamente.

Virilio, teorizando a implosão e o aniquilamento do espaço-tempo, questiona quais serão os estragos provocados pelo início de uma dissuasão informática da realidade sensível, depois do fim da guerra fria e do declínio da dissuasão atômica, que se parece cada vez mais com uma verdadeira "industrialização da simulação". Ele aponta para o perigo de nos distanciarmos do real, ou melhor, de não conseguirmos "distinguir entre o que vemos real, e portanto verdadeiro, e o que um outro indivíduo pode tomar como real e verdadeiro, (...) colocando-nos no lugar dessa outra pessoa," vendo com seus olhos, introduzindo-nos no final de um ciclo de apercepção, de privação sensorial, de cegamento que ele denomina "a indústria do não-olhar".

A reflexão de Virilio parte da constatação inicial de que as coisas acontecem e se volatilizam numa velocidade tão acelerada que o "movimento cria o acontecimento," um esboço onde a informação interage nos mais diversos setores causando a implosão do mundo sensível. Esse é um pensamento bastante escatológico da comunicação social; não podemos pensar o homem como um indivíduo encolhido nesse complexo informacional. Essa posição resvala para um determinismo tecnológico, inserindo tudo e todos num quadro reducionista de causa e efeito. O homem é dotado de livre arbítrio; por mais difícil que seja fugir das influências dos media, por Virilio designado como o quarto poder, existe um campo que pode ser perfurado, existem linhas de fuga.

As modernas tecnologias encerram um imaginário de representação, mas sem liquidar com todos os referenciais do real. "O ritmo ofegante e furioso com que os acontecimentos ocorrem há um quarto de século favorece o fortalecimento do esquecimento"(VIRILIO), mas nunca o determinam como coisa acabada, pronta. Mesmo que a simulação, os modelos perfeitos, nos insiram num jogo de ilusões, sempre pulularão interrogações sobre os princípios desse paradigma. Diante de qualquer objeto, forças exteriores e interiores agem num vaivém provocando uma interrogação sempre renovada, impedindo a degenerescência da espécie humana e a perda da relação produtiva humana com seu meio de vida, com o planeta.

Um mundo em movimento nos envolve, nos cerca, e não há como nos manter nos limbos da desinformação, o cosmos não pode fechar-se sobre si mesmo, ele está em constante devir. Com a evolução da tecnologia, muito antes da popularização da informática, fomos convidados a extrapolar nosso tempo real-histórico e habitar um tempo virtual. Segundo Lévy, existem diversas modalidades de virtualização, e esse movimento não se realiza somente no meio digital, mas, quotidianamente.

A virtualização está ligada diretamente à desterritorialização, do desprendimento do aqui e agora, que de forma alguma deve ser tido como perda de identidade, mas sim como uma multiplicação do "ser" e "estar". O declínio do espaço real resulta não de um modelo de desintegração das funções do conhecimento, mas na organização de um outro modelo mais próximo do movimento do próprio pensamento, e "o sentido emerge de efeitos de pertinência locais, surge na intersecção de um plano semiótico desterritorializado e de uma trajetória de eficácia ou prazer"(LÉVY, 1996).

Graças às listas discussões on line, às transmissões ao vivo de programas televisivos, aos debates via satélite que oportunizam a interação em tempo real, a unidade de tempo é desfragmentada da unidade de lugar. Ao utilizar a secretária eletrônica, bem como o telefone somos operadores desterritorializados de um espaço-tempo preciso, voltamos ao nosso estado primitivo de nômades. Outra característica da virtualização, segundo Lèvy, é a passagem do privado ao público e a transformação recíproca do interior em exterior (efeito moebius). Esse entendimento de virtualização é muito amplo, porque não se limita às comunicações, mas afeta também "os corpos, o funcionamento econômico, os quadros coletivos da sensibilidade ou o exercício da inteligência"(LÉVY, 1996).

Toda vez que projetamos sobre um determinado objeto uma intenção e fazemos com que ele seja reconhecido por seu potencial de atualização, estamos vivendo um processo de virtualização. Por exemplo, construímos nossa história atribuindo, diariamente, valores a determinados objetos, como a moeda corrente, as obras de arte, ou a imóveis em geral. Procuramos ainda incorporar os mais diversos benefícios que a tecnologia pode nos prover, como o uso de drogas, anabolizantes, vitaminas, próteses, equipamentos que nos tornam cada vez mais competentes e potentes.

Essa coabitação com os benefícios da técnica ou com a "ilusão" dos valores que atribuímos aos objetos que manipulamos intervém na constituição geral de nosso corpo, bem como em nossa atuação na sociedade. Tal simulação envolve uma relação de ganhos e perdas e não somente de perdas como enfatiza Baudrillard. A modernidade lutou por esse momento de dissuasão que se opõe ao embalssamento do conhecimento. Citamos, inicialmente, muitos intelectuais que lutaram pelo direito de um "desacordo com o tempo presente", pela evanescência de um saber absoluto, a explosão dos conteúdos e seus sentidos. Com a hiperinflação informativa o espaço homogêneo cedeu lugar à diferença, ao diverso. A dissuasão do singular deu lugar ao pensar coletivo pululante tão desejado pela modernidade.

Existe, pois, um movimento de virtualização em nosso meio social que não se opõe ao real, mas sobrevive ao lado deste, uma coexistensividade do real e do simulacro (minituarizações, próteses, clones, hologramas...). Estamos contaminados pelo reino da simulação, da ilusão, mas isto não configura uma sociedade perdida, um corpo perdido, uma "desrealização geral" como sugere Baudrillard. Vivemos num labirinto e constantemente estamos submetendo em xeque os conceitos fundamentais que enredam a natureza humana, pois passamos a trabalhar com valores flutuantes, tornando-se impossível assegurar uma compreensão real e única das coisas.

Não podemos nos acorrentear à imediatez, ao presente, ao sensível, ao aqui e agora. As inovações tecnológicas são resultado das ações sociais; o homem é o centro desse processo de conhecimento. As modernas tecnologias não agem, simples e diretamente sobre esse tempo histórico, o homem não está inerte nesse torvelinho. Pensar o mundo é pensar o homem que está mergulhado nele. Tudo o que ocorre no tempo, que nasce, se desenvolve e morre, pertence ao devir. O mundo revela-se governado por um misturado que exige a posologia correta das virtudes morais e intelectuais, e para tal precisamos nos manter sempre acordados e num estado dinâmico de contínua descoberta.

Bibliografia básica:

BARBOSA, Pedro. A renovação do experimentalismo literário na literatura gerada por computador. In Ciberkiosk, nº 2, maio de 1998, http://alf.ci.uc.pt/ciberkiosk.

BARTHES, Roland. S/Z — uma análise da novela Sarrasine de Honeré de Balzac. Trad. de Léa Novaes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1992.

BAUDRILLARD, Jean. Simulacros e simulação; trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D' Água, 1991.

CAMPOS, Haroldo. O arco-íris branco: ensaios de literatura e cultura. Rio de Janeiro: Imago,1997.

ECO, Humberto. Obra aberta. São Paulo: Perspectiva, 1986.

LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência; trad. Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1993.

______. O que é virtual? Trad. Paulo Neves. São Paulo: Ed. 34, 1996.

LUIZ DOS SANTOS, Alckmar. http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/hiper.html.#hipertexto . Por uma teoria do hipertexto literário.

SNYDER, Ilana. Hypertext. The eletronic labyrinth, New York University Press.

VIRILIO, Paul. A arte do motor; trad. Paulo Roberto Pires. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.