Gregório (hiper)lido

Alckmar Luiz dos Santos, UFSC/CNPq

http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/texto4.html

Já de algum tempo, minhas reflexões acerca do hipertexto literário (criação e leitura de textos literários em suporte informatizado) têm tentado pensar a emergência desse novo paradigma a partir das formas textuais precedentes. Em outras palavras, não se trata de negar uma diferença entre ambos (o texto impresso e o texto em computador), mas de tomar a devida cautela com o momento de transição que ora vivemos e que pode nos levar a enxergar miragens teóricas de todo lado. Para usar uma imagem expressa por Riobaldo, em Grande Sertão: Veredas, estamos como "peixe vivo no moquém", submetidos a movimentos conceituais, condições de contorno empíricas e exigências epistemológicas que ainda não controlamos bem. Em tais ocasiões, é fundamental manter "a mente aberta, a espinha ereta e o coração tranqüilo", ao menos para se perceber em que medida é possível estabeler um diálogo não arbitrário entre, por exemplo, Guimarães Rosa e Walter Franco (como acabei de fazer) ou entre o Barroco de Gregório de Matos e o computador (como pretendo fazer até o final deste artigo).

Em suma, ao percorrer o hipertexto literário, ainda lançamos mão de uma sensibilidade fundada em instrumentos de construção e de exploração do texto que se solidificaram nas últimos décadas. Ora, esses instrumentos dizem respeito diretamente ao texto impresso e indiretamente às formas orais de literatura. Assim, se eles nos permitem também percorrer o hipertexto literário, isso pode significar uma possibilidade (por menor que seja) de que o texto- produtividade(1) seja uma constante epistemológica, estabelecendo uma ligação indelével entre o "novo" e o "velho". Não queremos com isso negar a evidência de uma revolução paradigmática (ou corte epistemológico, como queiram). Todavia, não se pode esquecer que ela está ocorrendo nesse exato momento e que a reflexão teórica que ora se desenvolve deve tomar todos os cuidados para evitar, como disse acima, miragens e/ou equívocos conceituais. Não estamos ainda, como na imagem de Hegel, no entardecer da história, quando a coruja da filosofia levanta vôo para refletir e conhecer o que se passou. O sol ainda está bem alto no céu e a reflexão teórica deve tomar o máximo cuidado para não se cegar com o falso brilho de alguns reflexos, de algumas reflexões, sejam recentes ou não.

De todo modo, essa renovação paradigmática começará a tomar contornos mais definidos a partir do momento em que permitirmos que o hipertexto contamine os conceitos atuais acerca do texto, modifique o campo reflexivo e imponha novos instrumentos de discurso crítico, trabalho que antevejo como inevitável para os próximos anos no que toca à teoria da literatura.

Após esse intróito um tanto exaustivo, passemos ao que interessa mais de perto, isto é, à tentativa de pôr em evidência alguns pontos de contato entre texto impresso e hipertexto literário, a partir do campo poético. Ao que tudo indica, o hipertexto não faz mais do que concretizar certos movimentos da linguagem, explicitando e evidenciando propriedades e percursos inerentes ao campo da linguagem e que sempre estiveram virtualmente presentes na criação literária. Com isso, diga-se de passagem, apaga-se o (pre)conceito comumente associado a hipertexto, de que ele apenas virtualiza o concreto e produz simulacros do real.

Assim, a partir das características mais salientes do hipertexto literário (ao menos no modo como ele se apresenta nos dias de hoje), é possível talvez estabelecer ligações com a poesia de um Gregório de Matos e Guerra, mostrando como os deslocamentos, as hiperligações (links), as multireferencialidades, a dinamização incessante do hipertexto remetem, de alguma forma, a movimentos expressivos que já se delineavam a partir do texto impresso ao menos.

Uma lista das características do hipertexto literário não pode deixar de incluir, entre outros elementos, a passagem imediata e reversível entre parte e todo, a efemeridade do tecido significativo, a presença de textos não-verbais, todo um conjunto de aparatos para-textuais(2), a fragmentação e a multilinearidade.

No que se refere à ligação imediata entre as partes e o todo, trata-se de recorrência conceitual que vem sendo atribuída ao texto (literário ou não) há vários anos, postulando, como corolário imediato, o descentramento, ou seja, a impossibilidade de se eleger um centro privilegiado de significação. Todavia, no mais das vezes, confunde-se desabridamente a função com o que seria o realidade do centro, conduzindo a uma denegação de qualquer centralidade de leitura, seja ela definitiva e autoritária (como não poderia nunca ser) ou precária e transitória (como deve mesmo ser). Parece, inclusive, ser muito útil invocar as palavras de Jacques Derrida no que se refere a esse problema:

I didn't say that there was no center, that we could get along without center. I believe that the center is a function, not a being - a reality, but a function. And this function is absolutely indispensable.(3)

No caso, é possível invocar uma imagem criada por Gregório de Matos, para comentarmos poeticamente a indistinção entre parte e todo, resolvendo, ao que tudo indica, essa questão do (des)centramento.

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte sendo todo.

Assim, se há uma indistinção essencial entre parte e todo, no que se refere ao nível textual em que ambos se colocam e se dão a ler, diferenças funcionais podem ser estabelecidas a partir da escolha de diversos perfis de leitura, que se produzem também a partir do exterior do texto. Em outra palavras, podemos depreender daí duas coisas: a primeira é que a indistinção todo-parte implica uma outra dupla indistinção, dentro-fora; a segunda é que, tomadas separadamente, estas duplas oposições não permitiriam distinguir um membro do outro (quer dizer, tomando apenas a oposição parte-todo, não teríamos como estabelecer uma diferença definitiva entre ambos). Assim, o que nos permite diferenciar provisóriamente parte e todo, e dentro e fora, é a oposição mais geral entre as duplas parte-todo, de um lado, e dentro-fora, de outro.

Ora, essa imagem sugerida por Gregório poderia não ser mais do que mera coincidência. Todavia, a seqüência do poema nos permite, sem grande arbitrariedade, chegar àquela oposição mais geral acima mencionada, quando se faz menção à figura de Deus. Este parece representar uma espécie de deus ex-machina, dando à oposição todo-parte um antípoda (no caso, a oposição dentro-fora) que lhe fornece provisório centro de significação, passível de uma leitura, mesmo que precária. Aliás, a presença da figura divina em Gregório valeria uma exploração mais sistemática, na medida em que parece remeter constantemente a uma ordem externa mas sempre apontando para o horizonte geral dos sentidos, a fisionomia geral que circunda as significações e lhes permite produzir textos.

Com isso tudo, a efemeridade da obra, tendo como corolário imediato a efemeridade da própria leitura, se instaura como única via da realização textual: em Gregório (assim como em todo texto literário), o texto só se dá à leitura como ultrapassamento constante de um pelo outro, isto é, do texto pela leitura e da leitura pelo texto, num movimento constante de significação que, ao ser interrompido, dá ao leitor ocasião de se manifestar teoricamente, mas que distancia a coerência da obra literária que era então lida. Ora, não é demasiado lembrar que a efemeridade é outra das características mais salientes do hipertexto literário. E, mesmo nesse caso, é possível associar-lhe (a essa efemeridade essencial do hipertexto) efeitos e movimentos de construção textual anunciados em alguns dos recursos poéticos manejados por Gregório. A título de exemplo (e procurando não alongar em demasia o comentário crítico em detrimento da leitura direta do texto literário), pensemos em um poema do escritor baiano(4), em que a precariedade da construção textual leva quase que a uma simultaneidade entre o tecer do texto e o tramar da leitura, extinguindo-se um ao findar a outra, processo que é retomado incasavelmente a cada nova leitura:

Um soneto começo em vos gabo;

Contemos esta regra por primeira,

Já lá vão duas, e esta é a terceira,

Já este quartetinho está no cabo.

Na quinta torce agora a porca o rabo:

A sexta vá também desta maneira,

na sétima entro já com grã canseira,

E saio dos quartetos muito brabo.


Agora nos tercetos que direi?

Direi, que vós, Senhor, a mim me honrais,

Gabando-vos a vós, e eu fico um Rei.

Nesta vida um soneto já ditei,

Se desta agora escapo, nunca mais;

Louvado seja Deus, que o acabei.

E ainda, essa efemeridade cúmplice entre texto e leitura estabelece como contraponto uma fugacidade outra, inerente ao real e que se dá como espelhamento àquela que se delineia (como visto acima) na própria textualidade poética. Trata-se, então, de um duplo desdobramento que vai da efemeridade textual à transitoriedade das coisas do mundo e vice-versa, estabelecendo um percurso incansavelmente reversível e que torna manifesta a méthexis platônica, o nexo de participação entre palavras e coisas:

Nasce o Sol e não dura mais que um dia,

Depois da luz se segue a noite escura,

Em tristes sombras morre a formosura,

Em contínuas tristezas a alegria.


Porém se acaba o sol, porque nascia?

Se formosa a luz é, por que não dura?

Como a beleza assim se transfigura?

Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na luz, falte a firmeza,

Na formosura não se dê constância,

E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,

E tem qualquer dos bens por natureza

A firmeza somente na inconstância.

E, por último, a fragmentação, a multilinearidade e a incorporação de materiais e extratos não-verbais parecem fazer, em alguns casos, a força e a estranha beleza de composições do poeta baiano. Mesmo reduzido às duas dimensões da folha escrita/impressa, há ao menos um exemplo em que o poema explode e se dispõe como texto "estrelado", galáxia de Gutenberg avant la lettre, espetáculo que desfila diante do olhar ainda mais espantado do leitor incauto:

Dou pruden nobre, huma afá

to te, no, vel,

Re cien benig e aplausí

Úni singular ra inflexí

co, ro, vel

Magnífi precla incompará

Do mun grave Ju inimitá

do is vel

Admira goza o aplauso crí

Po a trabalho tan e t terrí

is to ão vel

Da pron execuç sempre incansá

Voss fa Senhor sej notór

a ma a ia

L no cli onde nunc chega o d

Ond de Ere só se tem memór

e bo ia

Para qu gar tal, tanta energ

Po de tod est terr é gentil glór

is a a a ia

Da ma remot sej um alegr

Recentemente, em artigo escrito para publicação coletiva francesa, vi-me diante da obrigação de traduzir para idioma gaulês a colossalidade (retomando, mais uma vez, Guimarães Rosa) visual deste poema. No caso, atrevi-me a outra releitura, dessa vez ditada pelos descaminhos da tradução, tentando não perder de vista seus aspectos mais salientes: o dilaceramento visual e prenhe de possibilidades de leitura, a complicação sintática tão ao gosto do século XVII, as aproximações morfológicas arbitrárias5 e, finalmente, a poesia apologética, cuja referencialidade séria contrasta com a exuberância e a alegria da disposição formal.

Instru vigil noble, huma aim

it, ant, in, able

Dro tempér bén et glorifi

Uni singulier, préci et st

que, eux, able

Magnifi fam incompar

Du onde, grave Ju inimit

m ge able

Ad iré, à vous l'élo croy

Puisqu toute rvée, tant redout

e co able,

Prest vous uronnez, si inlass

Votre réputat so si not

ion it oire

Dans la rég où il fa toujours n

d'Enfer il n'y a que vis s

Où les ion

P r des grâces tel et telle express

P is qu'il ar n pays st glorifi

u p so e é

D lus lointain, qu'il en it l lou

 

NOTAS

1. Conceito expresso por Julia Kristeva em seu Semeiotike - Recherches pour une Sémanalyse.

2. Como imagens e sons, citações diretas e indiretas, comentários, concordâncias e análises estatísticas, bancos informacionais vários etc.

3. Citado por George P. Landow, Hypertext. The convergence of contemporary critical theory and technology, The John Hopkins University Press, Baltimore, 1992, p. 13.

4. Na edição de James Amado, o poema intitula-se "Ao Conde de Ericeyra D. Luiz de Menezes pedindo louvores ao poeta não lhe achando elle prestimo algum".

5. Mas que deixam de sê-lo pelo trabalho de recuperação da primordialidade empreendido pelo espaço poético, trabalho que se opõe à atualmente ainda aceita arbitrariedade do signo lingüístico e enuncia, mais uma vez, por outro caminho, a imagem da méthexis platônica.