Literatura e(m) Computador


Alckmar Luiz dos Santos, UFSC/CNPq

Artigo publicado no jornal Ô! Catarina

http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/texto3.html

Talvez o título deste artigo não surpreenda pela inventividade, mas a hesitação criada pelos parênteses (e, ou então, em) permite mostrar como o texto impresso, mesmo ele, pode escapar das duas dimensões da folha do papel. É um exemplo bastante simples de que qualquer texto pode ser percorrido de maneira aberta, bastando que o leitor consiga estabelecer caminhos coerentes (não arbitrários) de leitura. No caso, partimos de uma construção - e(m) - que colocou em evidência o fato de que as possibilidades de leitura não se reduzem obrigatoriamente a uma seqüência linear.

Indo por esse caminho que foge à linearidade de leitura, encontramos o hipertexto informatizado, com todo o seu séquito de internet, www ou web, multimeios (imagens e sons imediatamente disponíveis ao toque do mouse), tornando possíveis certos percursos de leitura que não cabem mais na seqüência rígida e pré-determinada de linhas ou versos. Há, assim, uma característica comum que une hipertexto informatizado e texto literário: a possibilidade de buscar leituras que não se limitem a percorrê-los do modo imediato e seqüencial. Por outro lado, há algo que os separa: o fato de que o texto impresso apresenta uma hipertextualidade virtual (isto é, dependente de como o leitor vai buscar elementos de interpretação e amarrá-los em sua leitura), enquanto o hipertexto coloca concretamente na tela do computador toda uma procissão de imagens, ícones, sons, referências, dados etc.

Com isso, caem por terra dois preconceitos comumente associados à interface literatura-computador: de um lado, o receio de que tudo isso não passe de uma contaminação que põe a perder aquilo que seria a aura da literatura; de outro lado, o entusiasmo cego que vê em toda tecnificação do literário um progresso inevitável a que devemos nos curvar. Em resumo, se há condições de fazer a literatura falar através da tela do computador, isso não significa nenhum valor a priori, quer dizer, isso não implica nem rebaixamento nem elevação do texto literário, mas apenas um novo instrumento de criação que se coloca à disposição dos escritores. Aliás, a julgar pela quantidade de criações informatizadas, auto-intituladas literárias, que vemos aparecer nos últimos anos, temos aí um veio promissor, mesmo se a maior parte delas se ressinta de um certo primarismo de quem ainda não domina esses novos meios expressivos.

Em linhas gerais, o hipertexto vem colocar em evidência duas características que, de algum modo, já aparecem em latência no texto impresso: a espacialização dos significantes e a construção textual via operações iterativas (isto é, casuais e repetitivas). No que se refere ao aspecto espacial do hipertexto, podemos dizer que ele não constitui, de modo algum, novidade absoluta. Ele é, na verdade, o desaguadouro de toda uma tradição literária que remonta a vários séculos. Se nos restringirmos apenas ao período compreendido do Renascimento até os dias de hoje, podemos pensar em toda a literatura de inspiração esotérica dos séculos XVI e XII, cujas criações apresentavam alto teor de poeticidade em virtude da complicação visual e imagética de seus textos. Dando um salto para o século XX (e deixando de analisar mais de perto toda a tradição de acrósticos, divisas, emblemas e rébus da literatura ocidental, ou os hai-kais da tradição oriental), podemos pensar no Concretismo brasileiro do século XX, cuja criação poética apostava justamente na quebra do espaço bidimensional da folha de papel e do verso tradicional, incorporando elementos das artes gráficas e da propaganda.

Com referência à iteratividade, é possível rastrear, desde há muito tempo, referências literárias a uma escrita iterativa e/ou casual, criada diretamente por instrumentos (máquinas ou fórmulas) e indiretamente por seres humanos. No século XVIII, o maquinismo descrito por Swift nas Viagens de Gulliver propõe justamente a criação de frases a partir de uma máquina geradora de significações. Isso é retomado, em nossa época, por Umberto Eco em A Ilha do Dia Anterior, romance em que o narrador nos apresenta um jesuíta que, inspirado nas classificações aristotélicas, constrói um mecanismo gerador de significações a partir de escolhas aleatórias e movimentos mecânicos repetitivos. Há ainda, digno de nota, o molde poético de Quirinus Khulmann (poeta alemã do século XVII), capaz de dar origem a 6.227.020.800 (13!) poemas diferentes a partir de uma estrutura poética primeira (também retomado no século XX pelo poeta francês Raymond Queneau e seus Cent Mille Milliards de Poèmes). Dessa forma, a tradição literária ocidental sempre acolheu a possibilidade de desenvolver textos literários a partir de um incremento do aleatório e do repetitivo. A diferença fundamental talvez resida no fato de que o hipertexto não apenas retoma essa possibilidade como citação, mas também como realização, propondo novos rizomas dentro da rede construída pelas tecnologias do texto impresso.