Alckmar Luiz dos Santos, UFSC/CNPq
http://www.cce.ufsc.br/~nupill/hiper/saber.html
A passagem de textos originalmente destinados
ao suporte impresso para o meio eletrônico envolve uma série de
elementos que dizem respeito não apenas à produção
e à circulação de textos. Ela se produz num espaço
híbrido de circulação de objetos culturais implicando
um diálogo entre o meio telemático e o meio impresso e
está ligada, afinal de contas, à estruturação de
um saber que, na falta de melhor designação, podemos chamar internético,
termo que aqui proponho como resumo do que penso acerca da produção
do conhecimento em redes telemáticas. De toda maneira, se, ao final,
não ficar o leitor convencido do acerto e validade desse arremedo de
conceito, poderá ainda aproveitar o inesperado colorido da expressão
que, no caso, ao menos agradará, mesmo sem ter plenamente convencido.
Primeiramente, é importante explicitar os contextos e as referências
da questão em que estou pensando, para podermos ver alguma coerência
nesse saber internético. Nos últimos cinco anos, o NUPILL) tem
disponibilizado na rede textos clássicos da Literatura Brasileira. Em
linhas gerais, o que se tem pretendido, desde o início, é adaptar
para o meio eletrônico textos que foram concebidos inicialmente para o
meio impresso. Porém, o espaço das mediações e das
trocas culturais é um sistema de vasos comunicantes e, claro, um texto
disponibilizado em formato eletrônico não teria como ficar totalmente
preso ao meio em que é inserido: é assim que textos eletrônicos,
vindos do meio impresso, têm retornado a ele, caso, por exemplo, da Carta
de Pero Vaz de Caminha, que, nos meses que antecederam a comemoração
dos 500 anos da chegada dos portugueses, foi amplamente divulgada e, mais, divulgada,
em alguns casos, a partir da versão eletrônica disponibilizada
pelo NUPILL. Com isso, um texto divulgado durante séculos no meio impresso,
entra no espaço telemático para, em seguida, ser levada de volta
a seu leito original. É claro que nada ligaria a atual edição
impressa a sua origem eletrônica, se não fosse pela informação
dada pelos responsáveis das novas edições de que o NUPILL
era o responsável pelo texto.
Ora, no que se refere ao meio eletrônico, ainda quando ele disponibiliza textos originalmente concebidos para o meio impresso, ele propõe outras ferramentas e, por conseguinte, outros paradigmas de leitura. Sem nos alongarmos em demasia, basta pensar no comando localizar (find, nessa salada linguageira que assola a rede), disponível tanto nos editores de texto quanto nos navegadores. Ele representa uma economia de tempo considerável na localização de palavras ou expressões que, em caso contrário, seriam dificilmente reencontradas pelo leitor. Com isso, é o tempo, o ritmo e mesmo a ordem de leitura que se pode modificar, de acordo com ritmos e velocidades que resultam de um novo acordo, não mais entre nossas contingências físicas e uma folha de papel impresso e dando-se apenas ao olhar, mas de uma combinação entre as mesmas contingências físicas nossas e instrumentos de navegação e de leitura informáticos (que são propostos e intermediados por um aparato eletrônico que inclui elementos como mouses e teclados, imagens de cursores e de ícones, gestos e movimentos como cliques e ações de cortar/colar). Mas tudo isso, claro, não impedirá nenhum leitor mais obstinado (e cioso de seus direitos de aferrar-se a práticas e espaços já sobejamente conhecidos) de continuar lendo os textos como sempre o fez e de percorrer com os olhos o espaço da tela do computador como estivesse diante de uma folha de papel impressa. Com isso, quero afirmar que, grosso modo, os diferentes paradigmas de leitura continuam confluindo e o que hoje poderíamos chamar de leitura eletrônica ainda se resolve e se desenvolve, mesmo parcialmente, segundo hábitos e preceitos aprendidos e apreendidos com as práticas trazidas pelo texto impresso. Da mesma maneira, é legítimo pensar que, durante algum tempo, mesmo com o avanço da alfabetização, uma considerável quantidade de leitores ainda percorria seus caminhos de leitura carregados pelos ritmos e pelas imagens aprendidas (e também apreendidas) por séculos e séculos de "leitura" oral, em que eram os ouvidos e não ainda os olhos os responsáveis pela absorção do texto.
Todavia, quanto mais insistirmos na leitura em meio eletrônico, mesmo aos trambolhões, trancos e barrancos (como, aliás, parece ocorrer sempre que passamos por alterações mais bruscas nos paradigmas de circulação de objetos culturais), mais estaremos, de um lado, aprendendo os ritmos e restrições do espaço telemático e, também, mais estaremos forçando-o a acomodar-se a nossos projetos, desejos, pensamentos e também ao que acima chamei de contingências físicas (como a acuidade visual, por exemplo). Em outras palavras, o que estou propondo é discutir a necessidade e as estratégias de utilização de ferramentas informatizadas no armazenamento, na manipulação e na leitura de textos (e, aí, não nos restringimos, claro!, apenas aos literários, que todo tipo de texto suscita questões e possibilita reflexões semelhantes). Percebam bem que associei necessidade a estratégias, buscando chamar a atenção para a importância de utilizarmos esse instrumental tecnológico de maneira a estabelecer com ele um diálogo em condições de igualdade. Dito de outra maneira, temos que mapear os procedimentos informatizados e os processos telemáticos disponíveis, antes de utilizá-los de forma intensiva e extensiva, de forma que sejamos nós a nos servir da tecnologia e não a tecnologia (ou a tecnocracia por trás dela) a se servir de nós.
Com isso, creio ser possível escapar às derivas do texto eletrônico, àquilo que tenho chamado, já há algum tempo, de hiperinflação informativa. Explico melhor: um processo hiperinflacionário, em economia, corresponde à situação em que a moeda circula a velocidade tão alta que os agentes econômicos já não têm nenhum controle sobre ela; em conseqüência, ela acaba perdendo todo seu valor. O mesmo já ocorre atualmente (e cada vez mais!), quando deixamos as informações desfilarem, céleres, diante de nós e ao longo da tela do computador, sem qualquer percurso que vá desenhando uma certa fisionomia, um esboço de racionalidade pontual que poderíamos impor às buscas e aos hipertextos trazidos pelos cliques no mouse. No mais das vezes, ocorre de as pontas dos dedos estarem mais ávidas de toques excitados do que a mente ansiosa por idéias passíveis de alguma orquestração. Como conseqüência, podemos, por exemplo, começar uma busca por pintura impressionista e, quando nos damos conta, em algum raro momento de tomada de consciência, estamos diante de um improvável sítio de torturas sexuais no Hindustão medieval. Aparentemente, tratar-se-ia de um processo semelhante àquele descrito por Paul Valéry em "Poésie et Pensée Abstraite", em que a entrada em um universo poético tira-nos, sem que percebamos, da consciência imediata do dia-a-dia, das noções e reflexões da cotidianidade. Assim, a entrada nesse universo poético corresponderia à entrada em uma região de ritmos e de sons estrangeiros, inesperados, correspondendo, de fato, a uma tomada de posse da palavra pelo revés da significação e do discurso. Todavia, a entrada nessa hiperinflação informativa desenfreada não traz revés algum, já que o seu contrário é ela mesma. O trágico do excesso de informação é que seu lado escondido é rigorosamente idêntico a si próprio, isto é, uma região neutra e sem diferenças, o que vale dizer, sem significação alguma. De fato, o excesso de informação, exatamente por ser excessivo, deixa de ser informação e torna-se ruído, perde seu valor como no caso da hiperinflação da moeda. Mas, à diferença desta, que é um processo coletivo, a hiperinflação informativa é um fenômeno individual, podendo ser desligado a qualquer momento, por uma flexão no campo de interesses e de significações posto em movimento pelo leitor/navegador.
Dessa forma, antes de colocar em movimento
um saber dentro do ciberespaço, esse saber que, no título, chamei
de internético, é preciso fazer o reconhecimento desse espaço
e estabelecer como podemos, a partir de suas condições de contorno
e de nossas contingências, construir algo como um percurso cognitivo.
De início, nunca é demais lembrar a etimologia de cibernética,
termo cunhado a partir do grego kybernetiké, que remete, por sua vez,
ao timoneiro, ao ato de dar um curso à navegação em meio
às intempéries e às calmarias (tanto quanto, hoje, nesse
ciberespaço chamado Web, nos movemos em meio a acúmulos de informações
e perdas de conexão com os servidores). Trata-se, de fato, não
de buscar ou de encontrar, mas de construir uma orientação ao
mesmo tempo em que se avança nesse processo cognitivo e, se nada mais
de útil pode vir dessa metaforização espacializante, ao
menos ela nos servirá para pensar o pensamento de uma maneira não
habitual, associando a ele (e, em conseqüência, ao próprio
ciberespaço onde ele pode se desenvolver) os elementos e os procedimentos
da topologia. Em outras palavras, parece ser importante saber como orientar
o pensamento em um espaço onde a cognição ainda tateia,
onde hipóteses ou outras formas de retórica argumentativa devem
encontrar novos elementos e novos axiomatizações. Em um opúsculo
publicado no Berlinishe Monatsschrift, em outubro de 1786, Kant advertia que:
Sorienter signifie au sens propre du mot: daprès une contrée du ciel donnée (nous divisons lespace en quatre contrées de cette sorte), trouver les autres, notamment le levant. (...) Enfin, il mest possible délargir encore ce concept, du moment où il consisterait dans le pouvoir de sorienter non seulement dans lespace, cest-à-dire mathématiquement, mais dans la pensée, c'est-à-dire logiquement.(1)
Ora, importa, no caso, resgatar, nas palavras do filósofo alemão, a mesma operação de direcionamento para que já chamávamos acima a atenção quando apresentamos acima o termo cibernética. Todavia, Kant fala dessa espacialização do pensamento através das operações geométricas do espaço cartesiano, ainda submetido às injunções da geometria de Euclides. Se quisermos estabelecer uma diferença com o que hoje, através do ciberespaço, chamamos de topologização do pensamento, teremos talvez que apelar para as geometrias de Riemann ou de Lobatchevski. E, se essa tal topologização pode ter algum interesse para nós, ele reside justamente na possibilidade de nos fazer olhar e perceber o pensamento não como formas geometrificáveis provenientes de alguma ordenação gestáltica, mas em termos de espaços e de vizinhanças n-dimensionais, traduzindo justamente essa precariedade de domínios de validades e de imagens, chegando até às dimensões fracionárias dos fractais. Assim, esse pensamento que se exercita no ciberespaço pode aparecer não como uma atividade já preestabelecida em caminhos sobejamente conhecidos, em rotas traçadas na direção unilateral de uma Grande Razão travestida de dogma ou de preconceito, mas como uma retomada constante e provisória de uma racionalidade vivida corporalmente. Trata-se, em suma, de uma racionalidade em movimento, capaz de estabelecer conexões insuspeitas entre hipóteses e deduções, ao ponto de umas não mais se distinguirem facilmente das outras, como uma curva de Moebius retórica e argumentativa em que interior/anterior e exterior/posterior colocam-se no mesmo plano. Trata-se, enfim, de uma racionalidade não mais debitada à conta de um eu puro pretensamente encarregado de pôr uma ordem transcendental na poeira de fatos, palavras e gestos com que habitamos nosso dia-a-dia.
E, dentro do ciberespaço, a arquitetura conectivista através da qual ele se cristaliza e se dá à navegação talvez seja um dos primeiros elementos dignos de nota. Essa propriedade, que pode ser descrita como a característica do ciberespaço que nos permite partir de qualquer nó e chegar a qualquer outro, acarreta duas conseqüências. A primeira delas é a ilusão (e insisto nessa palavra, ilusão) de que todos os nós seriam, então, equivalentes, ou mesmo homogêneos. Com isso, qualquer significação, dentro do ciberespaço, seria definitivamente descartada, uma vez que só se chega a algum significado quando um sistema significante se torna capaz de opor diferenças relativas (e nunca absolutas) num horizonte de sentidos possíveis (esse, sim, o único absoluto em todo esse esquema). Opor nós intrinsecamente homogêneos seria, então, o mesmo que dizer que o ciberespaço leva, afinal de contas, a uma indistinção absoluta (e parece não ser outra coisa que está por trás das críticas de Baudrillard). A segunda conseqüência dessa arquitetura conectivista está em outra ilusão: a de que, ao contrário da homogeneidade a-significante acima descrita, o ciberespaço nos levaria a um saber total, completo, todo-poderoso, talvez até mesmo infinito, a um conhecimento que seria a realização de todos os otimismos tecnológicos dos dois últimos séculos. De fato, cria-se a impressão de que a extensão ilimitada e a variedade das leituras beiram o infinito e arrastam consigo as potencialidades do pensamento. Não mais um pensamento produto do espírito humano, mas pensamentos provenientes de próteses maquínicas que dão origem a uma nova união substancial, não mais aquela corpo-e-alma proposta por Descartes, mas uma corpo-e-máquina (que faz o horror de Paul Virilio e as delícias de um Pierre Lévy).
Assim, se conseguimos escapar a essas duas ilusões, teremos boas chances de entender como pode o pensamento se inserir de maneira produtiva e não automatizante (ou até mesmo alienante) no ciberespaço. Primeiramente, é fundamental esclarecer que a mencionada arquitetura conectivista não reduz as diferenças entre os diferentes nós. E, no caso, é igualmente importante perceber o quão essenciais são essas diferenças entre cada um dos nós, evitando que as diluamos em uma homogeneidade redutora e simplista. Em segundo lugar, isso tudo implica, certa forma, estabelecer limites para a razão, sobretudo para a razão que se exibe num (ciber)espaço fingindo-se vocacionado para o infinito. Ora, boa parte da filosofia ocidental vem-se construindo justamente na tentativa de desenhar os limites do saber, desde os pré-socráticos, passando por Sócrates, pelo Ceticismo de Pirro, chegando a Descartes (a dúvida sistemática é uma última e desesperada tentativa de mapear as fronteiras possíveis do saber para escapando ao ceticismo de um mestre anterior, Montaigne), a Kant (que afirmou buscar os limites da razão para salvar a fé), sem contar ainda Nietzsche, Husserl, assim como vários dos pensadores do século XX (Foucault, Derrida, Deleuze etc.). Voltando ao ciberespaço, visto a partir desse princípio de conexões aparentemente ilimitadas, podemos dizer que, se suas possibilidades de conexão são praticamente infinitas (e apenas a tentativa de esclarecer como seria essa infinitude das conexões já faria correr muita tinta), se pode não haver um limite concreto e definitivo para esse desfilar de informações, há, certamente, um limite para o saber. Aliás, saber sem limites está mais para desrazão (ou sua contrapartida, o irracionalismo) do que para conhecimento. Como no caso do excesso de informação que se reduz a ruído, a não informação, um saber pretensamente infinito, dotado de potências e possibilidades divinas, não seria jamais um saber. Aparentemente, parece não haver lugar para Deus no ciberespaço; ele se reduziria, aí, a um não saber. Na verdade, sem querer propor, neste texto, um ateísmo tecnológico, o que pretendo é entender como o conhecimento no ciberespaço só pode se construir a partir das precariedades dos indivíduos, da provisoriedade de seus esquemas de racionalização, da efemeridade e, ao mesmo tempo, da necessidade (da urgência, diria) de suas certezas. Isso talvez possa ser melhor entendido se analisamos o modo como o tempo se insere e se insinua no ciberespaço e em suas navegações.
No caso, o ciberespaço parece proporcionar uma espécie de justaposição de várias temporalidades (resultando, em parte, na efemeridade acima mencionada). Ele nos permite, por exemplo, num só golpe, perscrutar formas e funções de telescópios direcionados para o fundo do universo (pensando nos sítios que oferecem imagens de astros longínquos à comunidade científica e a quem mais se interessar). Com isso, consegue-se uma curiosa conjunção de dois movimentos: o primeiro é esse que aponta para o futuro, esse que nos coloca no vértice e no vórtice de uma máquina amplificadora do olhar e de sua imensa capacidade de processamento de dados e de imagens; o segundo é o revés desse primeiro, colocando diante de nós um passado absoluto, o instante do big-bang, nosso passado inaugural. Mas, o efeito dessa conjunção pode ser perverso, eliminando a diferença entre o direito e seu revés, na medida em que um e outro se homogeneizam, em que se reduz um a outro e se faz, imediatamente, do passado absoluto o futuro que permite vê-lo (o passado) através de olhos e sensores de uma máquina das mais modernas. Com isso, um e outro, passado e futuro, igualam-se, perdem suas diferenças recíprocas e reduzem ao absoluto de um presente que esteve no passado e estará no futuro simplesmente por que está por trás de tudo.
Ora, na verdade, sempre vivemos em várias temporalidades; em qualquer época, diferentes temporalidades se tocam, às vezes se confundem e se misturam: nos diversos ritmos das sociedades agrárias, conviviam os diferentes tempos da várias culturas, justapostos aos tempos das diferentes criações animais (aí incluídos os ritmos das gestações e das gerações humanas). No entanto, nunca tivemos essa experiência de reduzirmos as diferentes percepções de cada uma dessas temporalidades a um presente homogêneo, absoluto e onipresente. Aí parece residir a diferença desse tempo esboçado no/pelo ciberespaço. De fato, sempre nos espalhamos através de várias temporalidades, mas sempre nos foi dado, também, residir e resistir em uma delas. E foi justamente isso que se esvaneceu, em parte, com a telematização dos espaços que habitamos e que fazemos significar. A escolha de uma dada temporalidade parece ter-se reduzido drasticamente a uma única escolha. Ao menos, é essa a aparência da temporalidade homogênea que é marca do ciberespaço. Ela vem-se substituir a outras figuras que, ao longo dos séculos, caracterizaram a cultura ocidental: primeiramente, o tempo circular das sociedades míticas, em que presente e futuro estão sempre conjugados no passado, já que retornam incessantemente a um já-ocorrido; em segundo lugar, o tempo linear da ciência moderna, em que passado e presente reduzem-se a um percurso que só encontra sentido e explicação no futuro para o qual apontam, sempre e invariavelmente. A essas duas temporalidades, opõe-se, assim, o eterno presente da contemporaneidade telemática, que não aposta mais no passado mítico e nem, tampouco, no determinismo futurista das ciências modernas e positivistas. Trata-se de um tempo espacializado, absoluto, marcando todo território e, mais, toda possibilidade de des- e de reterritorialização. Aliás, a poesia de Alberto Caeiro acaba sendo uma das melhores figuras poéticas desse tempo. E mais: através dela é possível não apenas mapear (ver e habitar) esse presente espacializado, mas encontrar uma maneira de escapar a suas limitações. Isso parece se dar através de uma temporalização do espaço, propiciada pelo próprio trabalho de poetização do texto (que Caeiro, em um poema, chama de "a prosa de meus versos"). Em conseqüência, se, por sobre esse presente absoluto e espacializado do ciberespaço, não tentarmos ver um espaço temporalizado, vamos acabar nos submetendo a uma ditadura do aqui e do agora, do circunstancial e do efêmero, do simulacro e do esvaziamento. Assim, ao encarar o tempo apenas como espaço (com o que contribuem as lógicas conectivistas do ciberespaço), corremos o risco de cair na tentação fácil dos espaços telematizados, perdendo toda perspectiva de historicidade e chegando a um tempo que é enganação, subterfúgio, simulacro. Ao contrário, é justamente essa des-absolutização do espacial que nos torna capazes de fugir ao relativismo e ao irracionalismo, propondo um tempo que se dá a ver como espaço e, concomitantemente, um espaço que deve se dar a ver como tempo (ou, talvez, como ritmização do espaço).
Em suma, fugir do presente absoluto do ciberespaço
implica encontrar outros sentidos para essa sua interconectividade intrínseca.
Significa produzir o conhecimento também como um texto em rede, como
resultado da natureza essencialmente intersubjetiva de todo gesto, de todo pensamento,
de toda linguagem e, sobretudo, de toda linguagem que se textualiza num espaço
telemático de n dimensões. Na parte final deste trabalho, abordaremos
mais de perto algumas das estratégias para a construção
desse conhecimento em/na rede. Por ora, é preciso deixar claro que se
trata de um segundo estágio, obrigatoriamente precedido por um outro
que consiste em despir-se de algumas das ilusões muito freqüentes
no ciberespaço. Entre elas e que talvez seja a mais presente e
ameaçadora de todas , está a que nos entrega um (ciber)espaço
de que toda centralidade ou racionalização teria fugido. Junto
com o logocentrismo, com as metafísicas de essência, toda forma
de racionalidade pareceria ter-se esvaído, reduzindo toda significação
e todo conhecimento a uma reacomodação ou a um mero jogo de significantes
vazios. No caso, saber equivaleria a discurso, o que reduziria todo percurso
cognitivo a uma construção sofística cuja complexidade
traduziria seu valor de verdade. Em decorrência, qualquer construção
de sentidos e qualquer saber que se associasse ao ciberespaço pareceria
ser produzido quase que autonomamente, sem a intervenção de uma
vontade operante, de uma racionalidade circunscrita a certo domínio de
validade e posta a funcionar pelas vizinhanças significantes dos objetos
que aí aparecem. Não parece ser outro o sentido dos conceitos
de "ecologia cognitiva" e de "duo pensante homem-máquina",
ou ainda o de "conhecimento por simulação", de Pierre
Lévy(2). Ora, como todo espaço de sentidos, em que objetos culturais
se dão à produção e ao (re)conhecimento, o ciberespaço
é um locus onde se manifestam e se dão a (re)conhecer significações
e subjetividades. Como espaço, ele não tem autonomia nem para
impor processos de produção de significações, nem
muito menos espontaneidade para se fazer artífice solitário de
novas textualidades. Daí a necessidade de ele ser despido dessa máscara
de operacionalidade autocrática, dessa aparente capacidade de autonomia
ou de espontaneidade que distraída ou irresponsavelmente lhe atribuem
alguns de seus estudiosos. Por isso defendo uma posição diversa
dessa do sociólogo francês, em que, justamente, o saber seja produto
de uma racionalidade circunscrita a certo domínio de validade e posta
a funcionar e a se articular pelas vizinhanças significantes dos objetos
que aí aparecem, pelo trabalho de significação de leitores/navegadores.
Quero dizer, com isso, que o ciberespaço só vai adquirir significações
(sempre precárias e provisórias, nunca é demais lembrar),
na medida em que nós, navegadores, usuários, leitores, (hiper)escritores,
o fizermos repleto de sentido por uma decisão nossa, isto é, uma
decisão de cada um, mas que saiba buscar a presença dos outros,
por meio dessa fímbria de alteridade que nos dá nossa identidade,
ao mesmo tempo em que nos coloca em meio aos outros, em que nos instala num
centro que se desloca constantemente para as margens, buscando incessantemente
o aporte dos outros que conferem radicalidade e sentido a qualquer de nossos
gestos e significados individuais. Ora, isso que descrevo é como uma
fuite en avant, quer dizer, uma marcha em que se avança sem que o ponto
de chegada esteja definido, uma navegação a que nos lançamos
resolutamente, sem que o destino nos seja dado. Na verdade, tanto ponto de chegada
quanto destino acabam constituindo uma nova forma de centralidade, não
mais aquele centro das metafísicas ontológicas, mas um centro
funcional que começou a se esboçar já desde as metafísicas
gnoseológicas (a partir de Kant). E, no caso, uma das imagens mais felizes
para esse centro está numa charge (de cujo autor não me recordo
e a quem, infelizmente, não posso dar os créditos) que mostra
um equilibrista de circo montado sobre um monociclo; acontece, ainda, de esse
saltimbanco ser também um desenhista e, assim, a linha sobre que se equilibra
é desenhada pelo lápis que ele segura e que, à frente,
vai traçando seu caminho precário. Temos aí, então,
um centro que se dispõe não ao meio da travessia(3), mas sempre
à frente, nunca alcançado, o que vale dizer que é como
se ele estivesse servindo de fundo ou de horizonte a todo o percurso, sem que,
por isso, tenha que determinar inteiramente este último. Por isso Derrida
insiste na importância do centro, não como um Ser, certo!, mas
como uma função que, por isso, torna-se absolutamente primordial:
I didnt say that there was no center, that we could get along without center. I believe that the center is a function, not a being a reality, but a function. And this function is absolutely indispensable.(4)
E essa distinção é capital, sobretudo quando se trata de pensar o ciberespaço: entre o centro como essência e o centro como função, é evidente que apenas esta última é capaz de descrever o modo consciente e produtivo de nos apropriarmos do ciberespaço, de fazer dele uma região onde novos sentidos se somem aos sentidos já sedimentados em forma de cultura e daí extraiam novos percursos e novas perspectivas (mesmo indiretas) do mundo vivido. Com isso, evita-se a fossilização das percepções, o que constitui a pior das mortes que se pode dar o sujeito. Dessa maneira, tornamo-nos capazes de associar um sentido (mesmo provisório) ao mundo, ainda que ele assuma, nesse caso, essa precária aparência de cenários passageiros: paisagens, elementos, objetos lingüísticos, memórias, imagens, tudo desfilando com maior ou menor celeridade diante de nós, mas sem que percamos a capacidade de manter acesa sua espetacularidade, quer dizer, a possibilidade de estarmos diante de suas significações e de as percebermos, sem que, ao contrário, nós nos tornemos, nós próprios, um espetáculo (vazio) diante da tela do computador(5).
Outras ilusões do ciberespaço parecem derivar, de uma forma ou outra, dessa primeira. Uma delas diz respeito ao individualismo, que é uma das respostas possíveis ao espontaneísmo acima discutido (esse que propõe um ciberespaço homogêneo em que toda significação brotaria tão-somente de acentricidades e desterritorializações, sem interferências de quaisquer subjetividades). Trata-se, na verdade, de tendência ligeiramente oposta, em que justamente se tenta entender e estender toda significação como resultante de uma decisão individual, produto de um voluntarismo que se confunde com o nó a que se reduz, nesses casos, a subjetividade do leitor/navegador (e por trás de que ele se esconde). Ora, não se pode deixar de chamar a atenção para as conseqüências algo desastrosas dessa atitude solipsista, que instaura um relativismo fechado e redutor de que não se sai senão ao custo de uma negação de qualquer possibilidade de significação intersubjetiva, o que corresponderia, na verdade, à negação de qualquer possibilidade de linguagem. Ela é, aliás, parente próxima do solipsismo que marcou algumas das vertentes do cartesianismo, pois, afinal de contas, quando se investigam os bastidores desse cogito fundado apenas no Penso, logo existo, toda a certeza do conhecimento pareceria centrar-se numa identidade absoluta de si consigo mesmo, esquecendo que ela não tem como alicerçar-se a não ser na existência do mundo material. Toda a certeza do conhecimento só se estabeleceria, assim, a partir da arbitrariedade de uma consciência individual cuja substância é de natureza diversa daquela que ela quer conhecer, o que, e decorrência, negaria qualquer possibilidade de conhecimento. Em suma, esse individualismo leva, no limite, à negação de qualquer linguagem e, por extensão, também à de qualquer saber.
Ora, essas ilusões todas que afetam
e transtornam a presença do sujeito diante do ciberespaço não
são outra coisa senão um possível predomínio dos
simulacros de que fala insistentemente Jean Baudrillard. Eles aparecem, por
exemplo, nessas erudições de puro exibicionismo(6), que permitem
que algumas pessoas se comprazam em multiplicar referências inesperadas
e obscuras, impossíveis de serem retomadas, reencontradas ou mesmo utilizadas,
sem ser através de sua orientação privilegiada e de sua
posição de saber de pretensos eruditos. E, quando eles se armam
de informações à mancheia, multiplicam referências
cruzadas e arquitetam complexas figuras de percursos cognitivos(7), eles não
fazem, na verdade, mais do que produzir, eles próprios, a hiperinflação
informativa que já comentei acima. Um outro simulacro liga-se ao tempo,
ou melhor, à aparência de temporalidade que parece, então,
esvaziada pela celeridade desmedida das informações que não
desfilam, mas escorrem pela tela, diante de nós. E, como já afirmado
acima, esse desenrolar frenético não possibilitaria qualquer construção
significativa, pois tudo se reduz à homogeneidade de um presente talvez
nem mesmo eterno, mas obsessivo, opressivo, reduzindo toda diferença
significativa à platitude homogênea de sua onipresente figurinha
fácil, em uma tela cheia de pixels, mas vazia de significações.
Como resultado, temos um tempo espacializado, essa tentação fácil
dos espaço telematizado em que se perde toda perspectiva de historicidade,
chegando a um tempo que é definitivamente enganação, subterfúgio
ou mesmo dissimulação. E, ainda, um último simulacro, esse
que, finge carregar a presença do outro no rastro de seus gestos expressivos,
como se o encontro de discursos verbais ou icônicos em chats ou ICQ's
fosse capaz de resultar automaticamente na fundação de uma subjetividade
transcendental (que, como diz Husserl, é sempre intersubjetividade).
Todavia, ao contrário da intersubjetividade, o que mais freqüentemente
se encontra na ponta do cursor, operado pelo mouse, quando se contrapõem
discursos uns a discursos outros, não é uma aproximação
telemática que venceria distâncias e traria a presença do
outro até o sujeito de um dado discurso, mas sim a instauração
de uma distância tecnológica tão terrível e opressora
por se dar justamente no espaço limitado de uma tela de 14 ou 15 polegadas.
Com isso, confunde-se, talvez até ingenuamente, metafísicas de
aparência e metafísicas de essência, produzindo um platonismo
às avessas em que as presenças ideais (ou avatares) é que
seriam capazes de produzir, à distância, as essências do
mundo exterior e as subjetividades dos outros.
A partir de tudo o que se afirmou acima, podemos já, talvez, fazer uma imagem desse saber internético. Como afirmado acima, ele só se torna possível, quando conseguimos escapar às ilusões e simulacros do ciberespaço. Nesse caso, temos um conhecimento que se dá em rede ou, ainda, que se dá como uma rede textual (ou como texto em rede), derivando diretamente da natureza intersubjetiva de todo gesto significativo, de todo projeto de significação, de todo objeto significante. Somente esse saber pode dar à pluralidade dos espaços telemáticos n-dimensionais um sentido não unívoco, mas capaz de sedimentar e de possibilitar aquisições e doações de significações. Daí, em princípio, a necessidade de assentar esse saber internético em alguns pressupostos:
1) Ele deve ter por trás o esforço constante de expandir a taxa de circulação motivada e bem-sucedida das informações. Com isso, pode-se reduzir drasticamente o risco de uma hiperinflação informativa, seja pelo modo como disponibilizamos, na rede, informações, conceitos, idéias, processos etc., seja pelo modo como nos utilizamos das ferramentas telemáticas e das manipulações interativas e iterativas (vale dizer, repetitivas, a grande velocidade). Nesse sentido, tal esforço retoma, ainda que parcialmente, o projeto iluminista de democratizar o acesso a certos bens culturais (no caso do projeto do NUPILL, trata-se de textos literários), através da criação de aristocracias pontuais que, a partir da intensa mobilidade inerente à rede, podem espraiar-se incessantemente por outros nós e regiões outras. Com efeito, trata-se de um saber que não se subordina mais a qualquer centralidade previamente instituída, mas que faz de seu movimento (ou percurso) de cognição a própria centralidade funcional de que falava Derrida.
2) Esse saber internético, por meio da interconectividade inerente ao ciberespaço, deve ser aquele capaz de fazer-se concreta e verdadeiramente inter- e transdisciplinar (de que tanto se tem falado, mas, de fato, pouco viabilizado). Todavia, isso somente se obtém quando deixamos aflorar, explicitamente, a intersubjetividade inerente a toda forma de linguagem, quando fazemos dela a mediatriz de nossos percursos e mapeamento cognitivos do ciberespaço (quando, aí dentro, produzimos e lemos objetos significantes). Em certo sentido, trata-se de revestir de linguagem o exterior do ciberespaço, o que significa, de fato, dar a este último uma exterioridade, tirando-o do pedestal de forma absoluta e definitiva em que exterior e interior se confundiriam. Em muitos dos teóricos contemporâneos que se debruçaram sobre a internet, é comum que a descrevam como um labirinto ou, ainda, como uma curva de Moebius, perdendo de vista que, na verdade, apenas a linguagem pode ser metaforizada dessa forma com justeza e acerto. Em suma, se o ciberespaço, por vezes, se finge de infindo ou interminável, compete a nós não cair nesse engodo e dar a ele a medida e o alcance que lhe cabem e, sobretudo, não nos iludirmos com isso que é apenas aparência ou simulacro (e pensar que podemos tudo conhecer instantaneamente). Entre a aparência e o conhecimento verdadeiro há uma diferença fundamental, aquela mesma que podemos encontrar entre o diletantismo e a erudição. As primeiras não passam de admiração infértil e narcísica por si mesmas; as segundas apontam para uma humanização efetiva do saber, um saber concretamente compartilhado e que, por isso mesmo, parcela-se e deslocaliza-se e multiplica-se, incessantemente, ao mesmo tempo em que, num (apenas) aparente paradoxo, deixa de ser fragmentário.
3) Um verdadeiro saber internético implica o reaprendizado de uma nova paciência de aprender, ou seja a descoberta e a exploração de novos ritmos de conhecimento, em que o acesso e a utilização de instrumentos tecnológicos venha dialogar com nossas contingências, acomodando-se a elas. E é claro que isso não significa uma rapidez extrema em leituras/navegações ou na produção de informações dentro do ciberespaço (o que corresponderia a um otimismo tecnológico injustificável, a uma empolgação infrutífera e equivocada com máquinas e maquinismos). Aliás, essa pressa não se justifica nem mesmo nas atualizações de programas e de equipamento(8), quanto mais na construção de percursos cognitivos, mesmo quando baseados em processos fortemente instrumentalizados. Ao contrário do que afirma Pierre Lévy(9), se priorizarmos a busca de "velocidade e pertinência de execução, e, mais ainda, de rapidez", encontraremos tão-somente uma eficiência limitada às possibilidades e elementos de que já se dispõe, sem chegarmos àquele conhecimento sintético que Kant opõe ao analítico. O saber internético, ao contrário, não deve ser confundido com pressa, como também não pode ser confundido com totalidade ou infinitude: ele deve ser capaz de gerar diferentes velocidades e sincronias, a partir das diversas pessoas envolvidas e apostando, sobretudo, numa atitude em que são os instrumentos informáticos que se põem a nossa disposição e não nós que nos colocamos à disposição deles.
Notas
1. KANT, Immanuel. Oeuvres Philosophiques. volume II, Paris: Gallimard, 1980,
p. 521-545 [Bibliothèque de la Pléiade].
2. Ver, sobretudo, Les Technologies de l'intelligence. L'avenir de la pensée à l'ère informatique. Paris: Editions du Seuil, 1993 [coleção Points].
3. Como no trecho em que se conta o início da peregrinação do poeta na Divina Comédia (e que se prende ainda às metafísicas ontológicas de que falávamos acima):
A meio do caminho desta vida
achei-me a errar por uma selva escura,
longe da boa via, então perdida
Dante Alighiere (Inf., I, 1)
4. Cf. LANDOW, George P. Hypertext. The convergence of contemporary critical theory and technology, The John Hopkins University Press, Baltimore, 1992, p. 13.
5. Como acontece freqüentemente, na internet, nesse sítios de exibicionismo mais ou menos explícito, em que indivíduos ou famílias se expõem ao olhar do outro, olhar que é, no mais das vezes, um foco vazio por onde transita a própria vacuidade de quem crê se exibir de maneira transgressiva.
6. Que não são exclusivos do ciberespaço, mas atingem qualquer espaço de saberes institucionalizado, como as academias universitárias. De resto, essa situação configura o mesmo tipo de exibicionismo vazio já comentado na nota anterior.
7. Já se disse, ironicamente, que há páginas na internet cujas ligações internas e externas são mais embaraçadas do que um prato de espaguete.
8. Essa ânsia de substituição de nossas atuais versões de equipamentos e programas por outras sempre mais novas corresponde, de fato, àquela velha fetichização da mercadoria capitalista, tão bem estudada por Marx: quase sempre, essa substituição não corresponde nem mesmo a necessidades técnicas, mas serve tão-somente para manter em movimento dispendiosas estruturas de vendas das companhias produtoras de bens informáticos.
9. Les Technologies de lIntelligence, p. 134-5: "... le savoir informatisé ne vise pas la conservation à l'identique d'une société se vivant ou se voulant immuable, comme dans le cas de l'oralité primaire. Il ne vise pas non plus la vérité, à l'instar des genres canoniques nés de l'écriture que sont la théorie ou l'herméneutique. Il cherche la vitesse et la pertinence de l'éxecution, et plus encore la rapidité...".