TEXTUALIDADE LITERÁRIA E HIPERTEXTO INFORMATIZADO


Alckmar Luiz dos Santos, UFSC/CNPq

Comunicação apresentada nos Anais do V Encontro Nacional da ABRALIC

http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/texto1.html

Em 1907, Paul Diffloth publicou um ensaio sobre o que chamou "a matemática do amor" (La fin de l'énigme. Essai sur la mathématique de l'amour, Librairie Universelle, Paris). Entre outras coisas, o autor nos apresenta uma "tabela sinóptica das variedades do amor"(1), dando conta das quantidades que, segundo ele, constituem os vários tipos de relação amorosa. Logo a seguir, formula um lei pretensamente científica, expressa através de uma expressão matemática que permitiria o cálculo da duração do amor, de acordo com as quantificações anteriormente descritas:

3º Loi. La durée d'un amour dépend de l'importance relative des dominantes : coeur, sens, esprit ; plus l'amour est à base de sensualité moins il est durable, le coeur est le gage le plus sûr de la fidélité, les amours de tête sont vaines et fugitives (sic). Durée = k2 C/S.E (k2 é a constante de Diffloth)

Ora, é justamente o pitoresco desse tipo de imagem que parece ser tomado como escudo por vários estudiosos da literatura que, a partir de uma banalização da ciência como a que foi ensaiada por Diffloth, recusam qualquer discussão mais profunda acerca do que chamam "tecnologização acrítica do literário", com relação ao hipertexto informatizado. Parecem esquecer que esse mesmo espírito irreverente é o ponto central do Surmâle de Jary, não à toa contemporâneo de Diffloth. No caso, recusam-se a compreender o que significa a produção e a leitura dos hipertextos informatizados, confundindo ciência com tecnologia (como faz qualquer experimentador positivista) e não percebem o papel capital que nossas teorias do texto (sobretudo aquelas das últimas décadas) podem ter na compreensão disso que aqui chamamos hipertexto literário informatizado, ou seja, a criação literária e a leitura crítica a partir de suportes informatizados. Este trabalho pretende desenvolver uma discussão geral dos hipertextos, cujos pontos principais, a título de resumo, seriam: 1) as teorias do texto das últimas décadas nos permitem fazer abordagens válidas e extremamente produtivas do hipertexto informatizado; 2) o(s) paradigma(s) associado(s) ao hipertexto não são absoluta novidade, mas já se encontram, ao menos de forma embrionária, nas textualidades literárias precedentes, pois derivam de propriedades inerentes ao campo da linguagem; 3) no hipertexto informatizado, tais propriedades são desenvolvidas de modo diverso do que foi feito até então, introduzindo mudanças nas relações entre concreto e virtual, sem que um desses pólos seja abolido em favor do outro; 4) a produção de significações passa a contar com uma gama maior de ligações e de topologias possíveis, enfatizando ainda mais a possibilidade da semiose ilimitada, tal como a apresenta Umberto Eco, a partir de Pierce; 5) conseqüentemente, leitor e escritor devem reconfigurar sua área de atuação, o que permitirá recolocar de uma nova maneira essa mesma interação que desde sempre chamamos AUTOR.


TEORIA DO TEXTO E HIPERTEXTO INFORMATIZADO

É certo que, do lado dos teóricos do hipertexto literário, já se começa a insistir demasiadamente em certos lugares-comuns que não escondem uma visão tecnologizada do texto literário. Não há economia no entusiasmo com que tais teóricos destacam o papel das tecnologias informatizadas na exploração de novos espaços textuais, insinuando que estamos diante de formas totalmente revolucionárias de produção e circulação de textos, sem precedente na história das literaturas conhecidas. No caso, trata-se de uma oposição frontal aos teóricos mencionados no início deste ensaio, retomando a querela descrita por Eco entre apocalípticos e integrados. Todavia, há algo que os une e é justamente a incapacidade de rever auto-ironicamente seus paradigmas de reflexão e de leitura, o que permitiria o estabelecimento de pontes teóricas entre ambos os termos dessa equação, isto é, entre as teorias do texto que já se tornaram clássicas e a nova produção textual informatizada. Em todo caso, talvez seja menos condenável a adesão entusiástica ao tecnológico que seu antípoda apocalíptico: é realmente difícil compreender como se pode refletir acerca das "textualidades contemporâneas", a partir de uma recusa obstinada em admitir a emergência de novos paradigmas, a partir de uma utilização seletiva de tecnologias (utilizam-se as técnicas advinda da escrita e da imprensa, mas se recusam as novas tecnologias em nome de um purismo passadista). Cumpre, assim, entender as lógicas que estão por trás dos hipertextos informatizados, percorrê-los também pelo lado de dentro para desvendar em que estão criando novos elementos e em que remetem, inevitavelmente, às reflexões anteriores acerca do texto. Ora, numa primeira visada, o hipertexto se destacaria: a) pela efemeridade de suas manifestações; b) pela ausência de limites ou partes bem definidas; c) pelo desenvolvimento de nós e redes em ligações multilineares; d) pela fragmentação das leituras sucessivas que o hipertexto permite produzir; e) pela possibilidade de passar quase instantaneamente da parte ao todo; f) pela presença de grande quantidade de textos não-verbais; g) pela disponibilidade de todo um aparato paratextual (referências, imagens, citações, remissões, concordâncias, bancos informacionais vários etc.). No que se refere à efemeridade do hipertexto, não se pode de modo algum afirmar que isso constitui uma nova categorização do texto. Basta pensarmos em todo o aparato teórico desenvolvido por um Genette, por exemplo, através da imagem-conceito do palimpsesto, para percebermos que esse tom provisório e fugaz acompanha o texto literário desde sempre. Assim, há toda uma série de conceitos que podem ser extremamente importantes para elucidar essa fugacidade inerente (mas não exclusiva) do hipertexto. Quanto à ausência de limites, basta pensar, por exemplo, na tradição exegética medieval que tentou inutilmente impor amarras teológicas às interpretações dos textos bíblicos. No caso, é assaz eloqüente a imagem do poeta que não conclui seu poema, mas o abandona, mesma coisa que pode ser afirmada da leitura crítica de textos literários, sempre entregue a uma provisoriedade ao mesmo tempo exasperante e rica. A não-limitação do hipertexto não corresponderia jamais a uma infinitude de linguagem materialmente disponível na tela do computador, mas a uma convergência assimptótica que vai da construção das significações ao horizonte dos sentidos possíveis que as contornam. As questões relativas à multilinearidade e à fragmentação (e elas são citadas quase sempre juntas) remetem ao que me parece uma das características mais salientes do hipertexto ou, ao menos, àquela que seus teóricas mais se comprazem em descrever. Associa-se, ainda, às duas propriedades toda a discussão acerca de centro e descentramento, construção e desconstrução, a tal ponto que a própria matéria do hipertexto fica escondida debaixo de conceitos e preconceitos de toda ordem. No caso, talvez seja útil transcrever as palavras de Derrida com respeito a isso, deixando claro que a centralidade da leitura, mesmo provisória (como só pode ser), não implica necessariamente uma perspectiva única e redutora, coisa, aliás, vista como defeito em quase toda teoria do texto literário:

I didn't say that there was no center, that we could get along without center. I believe that the center is a function, not a being - a reality, but a function. And this function is absolutely indispensable.(2)

Além disso, nenhuma teoria do texto que se preze jamais emprestou ao texto uma imagem de linearidade estrita, de produção monolítica e unívoca de significações. E todo o esforço teórico das últimas décadas apontou desde cedo para esse constante ultrapassamento da leitura pelo texto (como aponta Barthes a respeito da obra de Proust, cujo prazer de leitura estaria no fato de que, a cada retomada, deixamos de ler sempre linhas diferentes). Com isso, chegamos a outro ponto característico do hipertexto informatizado que é essa capacidade proteiforme de transformar-se recursivamente de parte em todo e vice-versa. É claro que os materiais e a materialidade do hipertexto são diferentes, por exemplo, da poesia barroca. No entanto, os versos de Gregório de Matos (O todo sem a parte não é todo, / A parte sem o todo não é parte, / Mas se a parte o faz todo, sendo parte, / Não se diga, que é parte sendo todo.) prestam-se maravilhosamente para exemplificar isso que é inerente também ao campo literário da tradição impressa, isto é, a capacidade de construir significações localizadas mas que não deixam de remeter, como já disse acima, para o horizonte geral dos sentidos possíveis. Finalmente, os dois últimos elementos citados: o material textual não-verbal e, em geral, todo o aparato paratextual que cerca e alimenta o hipertexto (já houve quem dissesse que o hipertexto é essencialmente multimediático). A rigor, há uma série de tradições ocidentais (a divisa, a iluminura, o rébus etc.) e orientais (o hai-kai, por exemplo) que sempre souberam congregar texto verbal e texto não-verbal. É assim que o percurso do conceito de texto, sobretudo nas décadas de 60 e 70, nunca deixou de apontar para esse conúbio lícito e desejável entre os diferentes tipos de textualidade, bastando, para isso, pensar em todo o esforço da semiótica para pensar Texto como produtividade tout court, acima, portanto, de uma lexicalidade tão-somente verbal. Em suma, esses meus comentários não pretendem afirmar, de forma alguma, que não haja diferença entre os textos impressos e os hipertextos informatizados. Apenas buscam apontar para a possibilidade inicial de percorrer estes últimos a partir dos conceitos já forjados pelas teorias do texto, ao menos até o momento em que o próprio hipertexto comece a exigir e a forjar modificações paulatinas nesses mesmos conceitos, o que é inevitável em qualquer teoria, com qualquer objeto e, até mesmo, em qualquer ciência.


NOVIDADE E ANTIGUIDADE DO PARADIGMA HIPERTEXTUAL

A seguir, vamos retomar resumidamente alguns dos argumentos mais correntes em favor de uma "absoluta novidade" do paradigma hipertextual, como afirma a maioria de seus recentes teóricos. Será possível, creio que sem maiores dificuldades, mostrar como essa "absoluta novidade" pode ser vista, no mais das vezes, como renovação ou desdobramento daquilo que a produção literária impressa e, anteriormente, a tradição oral já traziam consigo. A imagem de uma produção literária automatizada, quer dizer, criada diretamente por instrumentos (aí se incluem tanto máquinas quanto fórmulas) e indiretamente por seres humanos, já se encontra desde há muito na literatura ocidental. Basta citar o maquinismo descrito por Swift nas Viagens de Gulliver, retomado, aliás, por Umberto Eco em A Ilha do Dia Anterior, ou o molde poético de Quirinus Khulmann, capaz de dar origem a 6.227.020.800 (13!) poemas diferentes a partir de uma estrutura poética primeira (também retomado no século XX por Raymond Queneau e seus Cent Mille Milliards de Poèmes) . Dessa forma, a tradição literária ocidental sempre acolheu a possibilidade de desenvolver textos literários a partir de um incremento do aleatório, do casual e do iterativo. A diferença importante reside no fato de que o hipertexto não apenas retoma essa possibilidade como citação, mas também como realização, propondo novos rizomas dentro da rede construída pelas tecnologias do texto impresso. De todo modo, quando o hipertexto torna concreto o que antes era citação, introduz um elemento novo que é a simultaneidade da produção e da circulação do hipertexto. É certo que essa estrutura pode remeter a formas embrionárias que já aparecem na tradição oral (basta pensarmos na produção dos repentistas), mas a velocidade e a amplitude dessa textualidade superam qualitativa e quantitativamente o fenômeno bastante circunscrito da transmissão oral, sobretudo no que se refere ao papel ativo do público consumidor. Este é levado obrigatoriamente a interferir nas etapas e na velocidade da produção hipertextual, muito mais do que o público-ouvinte fazia com as peças cantadas pelos trovadores ou improvisadas pelos repentistas. Ao lado disso, a incorporação de novos media traz concretamente para o espaço da hipertextualidade toda uma série de referências que, até a tradição impressa, se expressava em termos de uma contextualização e/ou intertextualidade aberta e virtual. Em particular, há que se destacar a capacidade do hipertexto informatizado de associar de imediato matéria visual ao extrato verbal, tornando concreto (seria melhor dizer textual) o que antes era referencialidade extra-textual. Com isso, ampliam-se os elementos disponíveis ao mesmo tempo na superfície do hipertexto: imagens, ligações a tesaurus e enciclopédias, citações imediata e inteiramente disponíveis etc. E, como conseqüência, aumenta sensivelmente o papel do casual, dando ao leitor a pouco confortável sensação de que seu domínio sobre o hipertexto é mínimo, quando, na verdade, ocorre justamente o contrário (voltaremos a esse ponto mais adiante). Ainda mais que no texto impresso, vale aqui a expressão de Pascal: no que concerne o hipertexto, temos un mot lancé à l'aventure, ou seja, há uma indeterminação ainda maior do eventual percurso exegético que se queira seguir, devido principalmente à confluência das instâncias de produção e interpretação. Com tudo isso, altera-se o equilíbrio entre virtualidade e concretude no espaço hipertextual, tomando como base o texto impresso. Não consigo compartilhar com o juízo corrente de que a informática introduz um espaço de absoluta virtualidade (por mais paradoxal que seja a expressão) na produção textual. Como pensar assim, quando aquilo que chamávamos até então de intertextualidade (nas suas várias formas) se apresenta diretamente na tela, estabelecendo uma indistinção irredutível entre o fundo e a superfície do palimpsesto? Dessa maneira, entramos no terreno da pluralidade também irredutível do hipertexto. Mais do que nunca, o espaço de produção textual, uma vez hipertextualizado, se desdobra incessantemente e nos dá acesso concreto a uma multiplicidade do possível. Podemos ver aí uma conseqüência direta de uma lógica múltipla de produção de significações que Umberto Eco associou à estrutura dos mundos possíveis (que, diga-se de passagem, não é uma lógica). Em um único espaço de leitura (se é que se pode considerá-lo único), textualidades diversas se entrecruzam, propõem variadas configurações de mundos possíveis e explodem definitivamente com a ilusão unitária e monolítica que o texto impresso poderia ainda sugerir aos mais incautos. De todo modo, não se trata de inovação radical do hipertexto, mas de uma predisposição do texto literário enquanto produção sempre aberta de significações. Ora, é justamente nessa selva selvaggia de multiplicidade e de polifonias (como já havia intuído Bakhtin) que se exige do leitor uma ação mais incisiva, abrindo mão da passividade que ainda poderia obstar à pluralidade desafiadora do texto literário. Se o hipertexto materializa percursos divergentes, dubiedades várias, escolhas de leitura (hipernavegação, para entrar na moda dos neologismos), perspectivas resolutamente indefiníveis, o leitor não se pode dar ao luxo de permanecer inerte diante dele, sob pena de esvanecer totalmente o hipertexto. Ao leitor mudo e impassível diante do texto impresso, o livro ainda impõe sua presença "esfíngica e fatal" (como dizia o Pessoa da Mensagem). Todavia, esse tipo de leitor, abandonado à passividade, perderá toda e qualquer concretude do hipertexto: mais do que nunca, a ação do leitor se desloca da esfera do eu-tenho-texto para a esfera do eu-posso-ter-texto. O trabalho direto do leitor é parte integrante e essencial da hipertextualidade informatizada. É a partir desse trabalho que se pode escapar aos dois extremos da leitura: seja o relativismo absoluto (perdoem-me mais esse paradoxo) dos arautos da descentralidade total, seja a centralidade fechada e monolítica dos essencialistas. Um texto plural, concretamente plural como é o hipertexto, exige uma dinamização ainda mais incisiva do leitor. Ele deve desenvolver um claro compromisso com uma leitura criativa, que busque sem cessar o estabelecimento de centros provisórios, amarrados por uma metatextualidade que lhe compete desenvolver, dando, enfim, uma costura coerente à precariedade de seu percurso textual. Com isso, supera-se a impressão inicial de um leitor passivo diante de um hipertexto autônomo, ou mesmo espontâneo. É claro que o leitor pode permanecer inerte diante da hiperinflação informativa que o espaço hipertextual coloca diante dele. No caso, estaríamos assistindo à degradação do hipertexto, convertido em velocidade sem referenciais, transformado em proliferação indiferenciada. Ao contrário disso, é justamente a possibilidade de uma leitura ativa e dinâmica (ainda mais ativa e dinâmica que com relação ao texto impresso) que dá ao leitor a capacidade e, ainda mais, a responsabilidade de desenvolver percursos de navegação hipertextual que não se limitem a um voyeurismo canhestro, extasiado diante do novo e do múltiplo, mas que saiba impor uma ordem de leitura, mesmo admitindo de antemão que ela é provisória. Com isso, ficam mais cerradas as relações entre leitor e autor, como já apresentamos acima. O hipertexto informatizado acentua e torna ainda mais concreta a intervenção do leitor na construção do espaço textual, ampliando as margens daquela interação que Eco chama de intentio operis - intentio lectoris, já explorada nos textos impressos pela modernidade literária. Haveria tanta diferença assim entre a leitura que estabelece toda uma série de correlações intertextuais (estruturas remissivas, citações explícitas e/ou implícitas, palimpsestos de toda ordem etc.) e o trabalho direto do hiperleitor, impondo ligações (links, em terminologia anglicizada que não me agrada muito) entre hipertextos diferentes? Assim como o poeta que abandona (e não conclui) sua obra, entregando-a à sanha devoradora-decifradora do leitor, o hipercriador, forçadamente altruísta, entrega um espaço textual que é ainda mais embrionário; mais do que textos prontos., ele dá a seus leitores matrizes de hipernavegações possíveis. Ao leitor, portanto, a responsabilidade ainda maior de dar a devida coerência de leitura, nesse campo de validade exíguo que o autor lhe entrega. De todo modo, no paradigma hipertextual, sobressai uma novidade: a explicitação de uma escrita coletiva. Os limites já precários entre diferentes leitores que concorrem para uma leitura dialógica de um mesmo texto (separados por quilômetros e, mais freqüentemente, por anos ou décadas) são ainda mais apagados. Ainda mais porque o hipertexto exige uma reconstrução incessante disso que chamamos de mesmo texto. A intersubjetividade deixa assim de ser pressuposto de uma filosofia da linguagem, para se tornar parte integrante e explícita do processo de produção e leitura hipertextual.


OUTRAS ESPECIFICIDADES DO HIPERTEXTO (ou, ponto final sem fecho)

O hipertexto se desenrola, assim, entre o concreto e o virtual, sendo apresentado como expressão deste, mas montando sua cena de significações a partir daquele. O hipertexto concretiza parcialmente o que antes era virtual (o intrincado jogo de extra-intra-intertextualidades insinuado desde sempre pela literatura) e dá virtualidade à signos e indícios do mundo material: através dele, é possível elaborar ambíguo jogo em que se realiza o virtual e se virtualiza o real. O hipertexto não mais se desenrola apenas linearmente como pergaminho. Principalmente - mas não apenas -, ele se enovela em múltiplas dimensões, resgatando a espacialidade e a movimentação que as palavras sempre tiveram em latência, mas que externaram com dificuldade em virtude da seqüencialidade da fala, primeiramente, e da leitura, a seguir. O hipertexto parte do texto escrito para propor transbordamentos e reformações do espaço de significações, numa produção frenética que acelera os tempos do literário e pluraliza sua topologia. Com tudo isso, o hipertexto abre caminho para que o leitor possa apalpar, pela metonímia poderosa que é a tela do computador, o caráter intencional do objeto construído em sua leitura, e a armação intersubjetiva que sustenta todo o seu discurso crítico. Ao mesmo tempo, coloca em questão o estatuto da autoria: não sendo possível eliminá-la, pois sem criação constante não há linguagem, o hipertexto nos deixa diante dessa perplexidade de constatar que nos tornamos efetivamente cada vez mais cúmplices uns dos outros (leitores e autores) e, o que é ainda mais importante, cada vez mais cúmplices de nossas próprias leituras.


NOTAS

1. Transcrito em Action Poétique, nº 95, 1984, pp. 65-7.

2. Citado por George P. Landow, Hypertext. The convergence of contemporary critical theory and technology, The John Hopkins University Press, Baltimore, 1992, p. 13.