Alckmar Luiz dos Santos, UFSC/CNPq
Artigo publicado nos Anais do IV Congresso Internacional de História e Computação
http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/texto2.html
As reflexões que começo a
desenvolver a partir desta página são traidoras. Para ser mais
preciso, elas não começaram aqui, propriamente, mas já
há algum tempo, em espaços outros. E são traidoras porque
pretendem se apropriar de uma textualidade que se anuncia diversa dessa que
temos diante de nós, inscrita na linearidade da leitura apressada, expressa,
no mais das vezes, na fragilidade do papel. Em suma, com minha traição,
tento, nada mais nada menos, irmanar-me à traição do tempo
(que vos abate e vos faz pender para a terra, sem cessar, nas palavras de Baudelaire).
Trata-se de não ser os martirizados escravos do tempo do poeta francês,
instalando-se plena e conscientemente na temporalidade, já que evitá-la
ou ultrapassá-la não parece ser dado à humana condição.
No caso, minha empresa exige mesmo um esforço razoável: devo saltar
a lacuna que se anuncia entre essa textualidade nova que tento apreender, que
já se insinua em minha escrita informatizada (já há muito
não faço rascunhos, limito-me a torturar as teclas com a impaciência
dos dedos quando erram) e o modo como meu texto vai se dar à leitura:
impresso em folhas, lido em silêncio ou ouvido com uma atenção
certamente cansada. De todo modo, aquilo de que falo está sempre impregnado
da maneira como falo: a novidade de que, pretensamente, me faço arauto
sofrerá a influência do antigo; o evangelho da renovação
ainda será, por algum tempo, expresso na antiga língua dos velhos
profetas. E é precisamente essa metamorfose de larva, esse enovelar-se
de pupa que me fornece a imagem mais adequada para iluminar isso que, em letras
capitais, chamei acima de TEXTUALIDADE INFORMATIZADA: impossibilidade de distinguir
com clareza o novo do antigo; ou, por outro lado, contigüidade do novo
e do antigo. Em todo caso, trata-se certamente de novas manifestações
de textualidade. Todavia, não se pode falar dela, ao menos na situação
atual, sem que ainda se utilizem os instrumentos da antiga textualidade. Do
mesmo jeito, não se pode fazê-la falar, torná-la instrumento
de produção de significações, sem que novo e antigo
se misturem. Dessa forma, a delimitação entre antigo e novo parece
sempre, e cada vez mais, arbitrária; cada vez menos fiel àquilo
que pretendemos descrever e discutir. Se queremos surpreender o sentido do novo,
devemos saber como ele se produz a partir do antigo, como a borboleta é,
ainda, uma larva evoluída.
É claro que poderíamos ter liquidado essa discussão com duas ou três citações de Hegel (ou de Deleuze, para os mais ardorosamente contemporâneos, ou de Heráclito para os resolutamente clássicos). No entanto, teríamos perdido a ênfase da explicação, essa eloqüência aparentemente inútil mas muito importante, criando um espaço textual que nos torna, de algum modo, cúmplices nesta produção de significados. Ora, de tudo o que se tem falado acerca da nova textualidade informática, diferentes reflexões têm apontado para uma absoluta novidade, para um paradigma de produção de significações que supera totalmente o que se fez até então. Aparentemente, estão-se inaugurando formas e espaços textuais totalmente novos, independentes das textualidades anteriores. É o que se afirma da poesia ("poesia"?) em computador, da leitura em hipertexto, das revistas em CR-Rom, dos cyber-romances etc. Mesmo sob o risco de enunciar um truísmo, é importante reforçar o fato de que a novidade não pode ser encarada como valor absoluto em si mesma. O novo só vai surgir como diferença (como novo arranjo de sedimentações, diria Merleau-Ponty) com relação às formações anteriores. Em outras palavras, se há um novo paradigma na produção textual, na maneira como construímos, lemos, interpretamos e utilizamos textos, esse novo paradigma não é autoevidente, ele só adquire seu sentido pleno quando justaposto a formas antigas.
Assim, a novidade do paradigma só será evidente e produtiva quando pudermos saber, com maior ou menor precisão, o que ele supera e o que ele conserva das formas anteriores de textualidade. E isso só é possível na medida em que evidencia seu processo de diferenciação, apoiando-se nas textualidades precedentes. Isso talvez explique minha relutância em aceitar como absolutamente novos os procedimentos de produção significativa dos hipertextos. De um lado, não podemos esquecer que nossa leitura desses hipertextos ainda se faz parcialmente (e ainda se fará por algum tempo) segundo estratégias de leitura desenvolvidas a partir da invenção da imprensa. Por outro lado, essa textualidade "gutemberguiana" nunca impediu a explosão virtualmente inter e hipertextual do que se lia.
Há diferentes concepções teóricas que, desenvolvidas para uma "textualidade de papel", parecem já carregar os embriões da hipertextualidade informatizada, como é o caso de genotexto, fenotexto e intertexto (Julia Kristeva a partir de Mikhail Bakhtin), de palimpsesto e arquitexto (Gérard Genette), de semiose ilimitada (Peirce via Umberto Eco) etc. Mesmo os procedimentos de leitura nunca se reduziram a percorrer linearmente a página. Ao contrário, eles sempre puderam desdobrar-se em percursos vários, compondo sobre a concretude do papel caminhos de leitura extremamente complexos, variados e, sobretudo, espaciais (fugindo à platitude da folha). E isso, inclusive, pode ser feito por iniciativa do próprio leitor, como diz Barthes ao comentar o prazer de leitura que experimenta em Proust (afirmando que este vem da possibilidade de pular linhas diferentes a cada releitura). No que toca à produção textual propriamente dita, não se pode deixar de pensar nos textos literários anteriores à informatização e que trazem uma inter-hipertextualidade virtual, quando não evidente: é o caso do complexo e sutil jogo de marcações ideológicas nas notas de pé-de-página do romance europeu do século XIX (estudado por Andreas Pfersmann, da Universidade de Amiens, França); é o caso da grande quantidade de textos visuais do Barroco português, recenseados por Ana Hatherly em uma maravilhosa antologia chamada A Experiência do Prodígio.
Em suma, essa nova textualidade que se anuncia através dos computadores e das redes é mais sutil do que se imagina ou do que se afirma nas discussões teóricas. Tentando traduzi-la em imagens, podemos pensar na bola de cera de Descartes: os movimentos dessa nova textualidade são, na verdade, transbordamentos e reformações (reformulações) de um espaço de significações que nunca conseguiu ser linear, mesmo quando exposto na autoritária linearidade plana do papel. Em outras palavras, o texto impresso já carregava possibilidades virtuais de leitura que os instrumentos informáticos tratam apenas de concretizar. Um exemplo: se, em Rabellais ou em Dante, encontramos referências esotéricas disfarçadas e fazemos nossa leitura como reconstrução dessa intertextualidade, numa leitura hipertextual, essa ligação entre os dois campos textuais (literário e esotérico) se encontra concretizada pelo toque do mouse, justapondo, na tela, os dois espaços textuais. É claro que se preserva a interferência do leitor: a ele compete organizar esse intrincado tecido de textualidades de origens diversas. Porém, fica difícil negar que há uma mudança na maneira como construímos o texto em nossa leitura: a construção intertextual, antes apoiada na memória e nos cruzamentos de citações e/ou referências disfarçadas, submete-se, agora, à evidência quase impositiva, quase ditatorial do texto-outro.
Assim, exige-se do leitor uma finesse (l'esprit de finesse de Pascal) de leitura que contrabalance a concretude meio brutalizada do texto informatizado. Trata-se, então, de desenvolver novas estratégias de leitura que assumam, além dessa linearidade da leitura impressa, todos esses movimentos de transbordar e de reformar (de reformular). A partir da obviedade da leitura linear (a que o texto impresso, na verdade, nunca se limitou), o leitor depara com o trabalho de dinamizar sua leitura, instalando um espaço de produção signficativa que concretize as possibilidades que já se insinuavam no texto impresso. Todavia, ao lado dessa continuidade entre os dois tipos de texto, há também que se levar em conta o aumento brutal da dinâmica de leitura: tanto o tempo gasto para se percorrer o texto, remontando as significações, sofre um processo de aceleração muito grande, quanto o próprio espaço textual passa por um aumento significativo (num computador ligado a diversas bibliotecas e a diferentes bancos de dados textuais, cada tela que vemos diante de nós é, não mais potencialmente, mas concretamente, um biblioteca de Alexandria). O que, antes, eram apenas referências indiretas (como a presença insinuada de Miró nos poemas de João Cabral de Melo Neto), preservando um certo predomínio da linguagem verbal, torna-se agora presença direta, imediata: verdadeiramente, os textos já não mais se contentam só com a seqüência de palavras e dispõem de todo um arsenal de imagens em movimentos, de sons que se produzem ao passar o mouse por determinado lugar.
Dessa forma, mais do que nunca, o texto - esse objeto cultural cuja moeda corrente é a linguagem - afirma-se como produção intencional, fundando sua existência na intenção do leitor, na maneira como este se dispõe a percorrer um espaço de significações que transcende, agora, o próprio espaço da linguagem verbal. Reafirma-se, assim, o fato de que os centros de significações do texto existem enquanto deslocamentos constantes: à antiga noção propagada pela exegese patrítica, impondo uma espécie de quintessência textual, de centro privilegiado de significação (e, por conseguinte, de interpretação), opõe-se, agora, uma reordenação constante dos eixos de leitura: não que esta se resuma a um percurso sem meta, a uma hipernavegação inconsciente (no exagero da hipertextualidade, esse é um problema que pode ocorrer e que deve ser evitado a todo custo; embriaguez hiperinflacionária de significações). Daí a importância de o leitor construir esse objeto intencional consciente da importância de suas escolhas e decisões: a ele compete multiplicar as referências, justapor textos outros, organizar percursos iterativos e diferentes. A ele, a obrigação de multiplicar os centros de significação, sem cair numa imposição de leitura fechada, como se todo texto fosse un roman à clé; a ele, finalmente, a sabedoria de pluralizar a leitura, enveredar por caminhos hipertextuais, sem esquecer dos percursos que já ficaram para trás e que, dobrando-se sobre sua posição atual, constitui a coerência de sua leitura. O leitor hipertextual deve ser capaz, como os pequenos dos contos-de-fadas, de deixar cair suas migalhas pelo chão, enquanto anda, para saber recompor o caminho trilhado e não se perder na selva da indiferenciação dos significados. É justamente dessa recomposição do percurso passado de leitura, a partir da posição atual, que se faz a coerência de uma leitura. É o que se pode deixar para nossos leitores-segundos, aqueles que se dignam a ler nossa própria leitura.