|
A
Renovação do Experimentalismo Literário na Literatura Gerada por
Computador PEDRO BARBOSA http://www.ciberkiosk.pt/arquivo/ciberkiosk2/ensaio/barbosa.html |
|
Uma vez fundado o Centro de Estudos sobre Texto Informático e
Ciberliteratura na Universidade
Fernando Pessoa,
unidade de investigação transdisciplinar que se propõe desenvolver não
apenas uma reflexão teórica mas também uma prática criativa assente
nas novas modalidades de texto nascidas com o advento da informática e
das novas tecnologias digitais - com particular destaque para o texto
automático, o texto dinâmico e o hipertexto - será oportuno explorar
aqui uma delimitação definitória destes conceitos no seu âmbito de
aplicação.
Tentarei, num tão extenso e tão instável domínio, ser o mais sintético
possível.
A dificuldade é acrescida pela permanente mutabilidade destas novas
formas de criação literária, ainda em plena fase de consolidação, e
portanto sem um perfil bem delineado. Nascidos das recentes tecnologias
digitais da informação, ou seja, das tecnologias electrónicas por
vezes conectadas com algum snobismo intelectual à era pós-moderna ou pós-industrial,
os novos paradigmas de texto que estão a emergir, bem como os novos géneros
ou tendências literárias que sobre eles se estão a esboçar, merecerão
ser apelidados com esse rótulo, tão nebuloso quanto indefinível, de géneros
literários "pós-modernos"?
E quando usamos designações ainda mal estabilizadas, como sejam
Literatura Gerada por Computador, Literatura Informática, Literatura
Algorítmica, Literatura Potencial, Ciberliteratura, Literatura
Generativa, Hiperficção, Texto Virtual, Geração Automática de
Texto, Poesia Multimédia ou Poesia Animada por Computador, estaremos a
falar de novos géneros literários, de novas estruturas textuais ou de
uma nova corrente literária?
Que se trata de uma nova corrente artística, abrangendo a nível
mundial quase todas as artes - desde a música às artes visuais,
passando mesmo pelo cinema - disso parece não restar dúvida. Seja como
for, poder-se-á falar aqui, sem pretender com isto abrir polémica, de
uma renovação do "experimentalismo literário"?
Passemos então a uma explanação sintética - e o mais sucinta possível
- dos conceitos básicos que a nosso ver poderão alicerçar estas novas
modalidades de criação artística e literária.
Literatura
Gerada por Computador (LGC), Infoliteratura ou Ciberliteratura são
termos que designam um procedimento criativo novo, nascido com a
tecnologia informática, em que o computador é utilizado, de forma
criativa, como manipulador de signos verbais e não apenas como simples
armazenador e transmissor de informação, que é o seu uso corrente.
Tal uso criativo do computador, extensível de forma geral à Arte
Assistida por Computador e à Ciberarte (composição musical, criação
de imagens sintéticas, cinema animado por computador, etc.), varia
consoante as potencialidades gerativas do algoritmo introduzido nos
programas. Tais programas assentam normalmente num algoritmo de base
combinatória, aleatória, estrutural, interactiva ou mista (combinando
uma ou várias destas modalidades).
No estado actual em que se encontra, a LGC abrange três grandes linhas,
géneros ou tendências de criação textual, as quais muitas vezes
podem assumir uma forma mista: a poesia
animada por computador (que, na continuidade da poesia
visual,
introduz a temporalidade na textura frequentemente multimediática da
escrita em movimento no ecrã), a literatura
generativa (que mediante "geradores automáticos"
apresenta ao leitor um campo de leitura virtual constituído por
infinitas variantes em torno de um modelo) e a hiperficção
(narrativa desenvolvida segundo uma estrutura em labirinto, assente na
noção de hipertexto, ou texto a três dimensões no hiperespaço,
em que a intervenção do leitor vai determinar um percurso de leitura
único que não esgota a totalidade dos percursos possíveis no campo de
leitura).
Na Ciberliteratura o computador funciona como "máquina aberta",
ou seja, uma máquina em que a informação de entrada ou input
é diferente da informação de saída ou output (por oposição
às "máquinas fechadas", como é o caso de um gravador áudio
ou vídeo, onde a informação de entrada é igual à informação de saída).
O computador no seu todo (hardware mais software) equivale
a uma "máquina semiótica" criadora de informação nova, o
que conduz a uma alteração profunda em todo o circuito comunicacional
da literatura no que concerne à criação, ao suporte e à circulação
da mensagem.
Um diagrama genérico poderá esquematizar o processo criativo, onde o
computador se intercala na relação autor-leitor:
O acto criativo cinde-se aqui sempre em dois momentos: o da concepção
(humana) e o da execução (maquinal), segundo Max Bense; ou, segundo
Abraham Moles, o da criação essencial ou ontológica (realizada pelo
artista) e o da criação secundária ou variacional (realizada pela máquina).
O artista concebe o modelo da obra a realizar (programa), a máquina
desenvolve e executa as múltiplas realizações concretas desse modelo
dentro de um campo de possíveis. O texto-matriz (pattern),
concebido pelo autor em estado latente ou potencial, abre-se sempre a um
campo de possíveis mais ou menos vasto, e tendencialmente
infinito, que constituirá o conjunto dos estados textuais actualizados
ou concretos. Tal campo de possíveis dará origem a um campo de
leitura, o qual pode ser explorado pelo próprio autor, que nele irá
colher e seleccionar o(s) texto(s) a apresentar ao leitor, mas pode também
ser explorado directamente pelo próprio leitor, dependendo isso de quem
use no computador o programa criado. Daqui decorrem duas modalidades de
utilização:
A noção de texto computacional depende obviamente do algoritmo
utilizado para o criar e do método adoptado para o percepcionar. Em
todo o caso a noção de texto virtual poderá talvez constituir
a designação mais abrangente: "texto virtual" é um texto em
potência que contém o programa genético das obras a gerar; o
computador intervirá então aqui como um extensor de complexidade,
capaz de dar execução à multiplicidade infinita dos textos (e
portanto dos sentidos) a gerar pelo programa. O "texto
virtual" é assim uma estrutura literária associada a um motor
informático que a põe a funcionar. E o autor institui-se, por
conseguinte, em "meta-autor" (Balpe).
O circuito literário tradicional surge então aqui radicalmente
alterado nos seus múltiplos componentes: na relação autor/texto, na
relação texto/leitor, na relação autor/leitor, e na própria noção
de Texto. Entramos no domínio do Texto concebido como pura "máquina
verbal": ou do texto como estrutura geradora de sentidos.
Em qualquer dos casos o computador funciona, seja como um amplificador
de complexidade, seja como um actualizador das capacidades textuais:
quer dizer, sempre como uma prótese mental prolongando o autor
duma forma simbiótica.
Mas aquilo que do ponto de vista do autor pode surgir como "texto
virtual", do ponto de vista do leitor pode surgir como "texto
de leitura única" (Bootz), e no domínio do texto computorizado
propriamente dito pode ser descrito, pela sua dinâmica, como
"texto em processo" (Bootz) ou, pelo seu resultado, como
"texto múltiplo" (Moles). A introdução da interactividade
no momento da recepção do texto em processo pode conduzir a uma
interversão simbiótica nas funções tradicionais do autor e do leitor
mediante uma maior ou menor participação deste último no resultado
textual final: entra-se num processo de escrita-pela-leitura ou de
leitura-pela-escrita que já tem sido denominado de "escrileitura",
o que implica um novo papel para o utente/leitor - "escrileitor",
"wreader" ou "laucteur".
No âmbito específico da Ciberliteratura (texto automático) convirá
explicitar ainda alguns conceitos. 1º)
COMPUTADOR = manipulador de signos ou máquina semiótica. Por
outras palavras: o computador é encarado aqui como o manipulador de um
conjunto de sinais linguísticos (reportório) obedecendo a um conjunto
de regras (gramática) de acordo com um conjunto de instruções
definidas pelo programa (algoritmo). Sob este aspecto o computador
apresenta-se como uma máquina, dita "não-determinista", onde
a informação de saída (output) é diferente da informação de
entrada (input): isto em oposição às máquinas ditas
"deterministas" - tal como um magnetofone - onde a mensagem aí
armazenada permanece sempre idêntica a ela mesma. 2º)
LINGUAGEM: desde Lucrécio até Kristeva, passando por escritores como
J. L. Borges, a longa tradição atomista concebe a linguagem como uma
combinatória infinita de átomos linguísticos: letras, fonemas, vocábulos,
sintagmas, frases, etc. Desta formulação deriva a seguinte. 3º)
OBRA ARTE: estrutura de signos recombinados de maneira inovadora. 4º)
CRIAÇÃO ASSISTIDA POR COMPUTADOR: tal como fez Gianni Rodari na sua
"Gramática da Fantasia", invocando a fórmula de Nake,
poder-se-ia propor aqui também um modelo a três elementos:
Ou seja: Criar (C) no computador equivale a fornecer um reportório
finito de Sinais (S), um número finito de Regras (R) para combinar
esses sinais entre si, e uma Intuição (I), simulada pelo algoritmo,
que determine quais os sinais e quais as regras que serão seleccionados
de cada vez. O conjunto constitui o trinómio que define o PROGRAMA ESTÉTICO.
Assinale-se que o I pode mesmo representar a intervenção do acaso como
simulador da Imaginação: obtém-se então um "binómio fantástico"
onde S e R, por um lado, são a norma, enquanto I é a liberdade ou o
arbítrio criativo.
5º) PROGRAMA ESTÉTICO NA L.G.C.: a fórmula anterior resume com efeito
a criatividade artística por computador na sua modalidade mais
abstracta. O I da "imaginação", no domínio da Literatura
Gerada por Computador (LGC), engloba a componente do programa que
costumamos apelidar de "gerador" e que está na base do seu
dinamismo: em geral consiste num procedimento de tipo aleatório,
combinatório ou algorítmico. Na era do computador pessoal poderá
mesmo acrescentar-se a interactividade.
6º) CAMPO CRIATIVO: a criação do modelo de obra continua a ser um
trabalho de concepção humana (criação ontológica ou essencial); a
exploração do campo dos possíveis aberto por esse modelo potencial é
que será tarefa da máquina, a qual pode fazê-lo de um modo
infinitamente mais rápido e rigoroso do que nós (criação variacional
em torno de um modelo). O computador torna-se aqui um extensor da
criatividade: ele converte o infinito em finito (A. Moles).
7º) CAMPO DE LEITURA: um modelo de texto dará assim lugar a uma
infinidade de "múltiplos" todos diferentes entre si, em lugar
das habituais "cópias" sempre idênticas ao modelo e a elas
mesmas. Fica deste modo aberta a via para uma verdadeira "arte
variacional". No caso de a interactividade ser forte, o acto
habitualmente passivo da leitura transforma-se numa actividade
participativa de verdadeira "escrita-leitura" e o leitor
assume o estatuto de "escrileitor" (wreader, laucteur).
O programa informático interactivo, com opções abertas ao utente-leitor,
é que vai permitir a este, dentro de determinadas restrições (regras),
elaborar não só a sua "leitura" mas também a "construção"
do texto a visualizar no ecrã ou a fixar por escrito na impressora.
A Infoliteratura impõe regras e restrições? Sem dúvida. Mas a arte
sempre foi isso: uma liberdade inventiva exercida num contexto de regras
restritivas. O que é um soneto? Uma criação poética exercida no
interior de uma grelha formal de 14 versos conjugados entre si por uma
determinada relação métrica e rimática. A Ciberliteratura (ou
Literatura Informática Generativa) poderá assim vir a assumir-se como
um "género literário" novo, assente nas
possibilidades abertas pela informática.
Três aspectos haverá ainda a reter no contexto comunicacional da
Infoliteratura. A)
Fixação da mensagem: surge
um suporte novo para a escrita. Podendo dispensar a mediação do papel,
a palavra escrita é armazenada digitalmente em suporte magnético e
exibida electronicamente no monitor de qualquer computador (muito embora,
subsidiariamente, ela também possa ser fixada em papel através da saída
para uma impressora). O tratamento digital da informação faz com que
esta possa facilmente integrar elementos discursivos variados (palavras,
sons, imagens) assumindo cada vez mais o texto uma dimensão
multimediática. B)
Circulação da mensagem: é
feita através da mediação de suportes magnéticos (como a disquete ou
o CD-ROM) ou directamente de computador para computador por mais ou
menos vastas ligações em rede (a Internet é apenas um exemplo
actual). C)
Produção e recepção da mensagem: a
mensagem literária assume-se quase sempre estruturalmente como obra
aberta - seja na sua modalidade potencial seja na sua modalidade
interactiva. Tal facto implica a participação do
"utilizador" para lhe dar existência verbal. Ora, sendo a
mensagem constituída por opções do próprio utente-leitor no contexto
de um labirinto tantas vezes inesgotável de percursos leiturais,
qualquer texto final assim concretizado é também a emanação
personalizada do utilizador do programa; e tal emanação é acrescida
quando o programa lhe concede a possibilidade de intervir com dados
pessoais, modificando ou reescrevendo o texto virtualmente proposto.
Adentro da Literatura Gerada por Computador (LGC), o termo Infoliteratura
assumirá assim um sentido lato, podendo abranger qualquer tipo de
colaboração simbiótica entre a informática e a criação literária
(a hiperficção, por exemplo, ou a poesia dinâmica multimédia);
já o termo Ciberliteratura, em sentido restrito, e atendendo à
raiz "ciber" conectada à ideia de automatismo, seria uma
designação mais apropriada para a literatura generativa criada com
base em programas de geração textual automática.
Se a LGC parece ter surgido inicialmente como uma nova tendência literária,
ela parece em todo o caso estar a circunscrever-se aos limites de um
verdadeiro "género literário" cujas novas formas se vão
metamorfoseando em função do progresso da tecnologia informática.
Estamos porém num ramo ainda muito fluido da criação literária, em
fase inicial do seu desenvolvimento e longe duma consolidação estável,
pelo que se torna prematuro estabelecer definições definitivas e
porventura insensato arriscar neste domínio previsões futurológicas. |
|
BIBLIOGRAFIA:
BALPE,
Jean-Pierre e Bernard MAGNÉ, eds. L’imagination informatique de la
littérature. Paris: Presses Universitaires de Vincennes, 1991 BALPE, Jean-Pierre. "Pour une littérature informatique: un manifeste...". URL: http://www.refer.org./textinte/littinfo/%201_balpe.htm BARBOSA,
Pedro. A Ciberliteratura - Criação Literária e Computador.
Lisboa: Edições Cosmos, 1996; BARBOSA,
Pedro e Abílio Cavalheiro. Teoria do Homem Sentado (livro
virtual, incluindo em disquete o sintetizador automático de textos Sintext).
Porto: Edições Afrontamento, 1996; BOOTZ,
Philippe: "Un modèle fonctionnel des textes procéduraux", Les
Cahiers du CIRCAV, Nº 8, (1996), pp. 191-216; CASTILLO,
José Romera et alii, eds. Literatura
y Multimedia.
Madrid: Visor Libros, 1997; VUILLEMIN,
Alain e Michel LENOBLE, eds. Informatique et Littérature - la littérature
générée par ordinateur. Arras: Artois Presses Université, 1995. |