Ciberlegenda Número 3, 2000

A literatura no compasso do virtual.

Dênis de Moraes

http://www.uff.br/mestcii/denis5.htm

Para Wander Melo Miranda

1. O ambiente literário on line

Partimos do reconhecimento prazeroso de que, mesmo no ambiente de fluxos infoeletrônicos intermitentes em que vivemos, a literatura tradicional continua fascinante e insubstituível. Nas palavras gravadas com tinta no papel, podemos nos mover pelo que Mario Vargas Llosa define como “as mais belas paisagens da imaginação”. Impossível abandonar o contato suave com a superfície lisa do livro, a capa fosca ou brilhante, as folhas brancas encadernadas, a lombada, os marcadores...

Devemos, porém, admitir que o mundo das letras já não gravita apenas em torno de livros impressos, prontos e acabados, nem se vincula, atavicamente, a crivos acadêmicos, aos filtros da grande mídia e às injunções do capital. Os materiais literários alastram-se pela Internet com rara e imprevista desenvoltura. A mega-rede planetária integra-os com flexibilidade para enlaçar novos conteúdos e multiplicá-los em usos partilhados, através de bases de dados e publicações eletrônicas, em constantes mutações e acréscimos, abarcando períodos históricos, gêneros, movimentos e escolas. Se a tais evidências somarmos as vantagens propiciadas pela hipervelocidade da transmissão digital, o baixo custo de produção e a substancial autonomia de veiculação que a Internet possui frente à esfera impressa, encontraremos pistas concretas para a febre literária virtual.

De fato, a Web encontra-se superperpovoada de sites literários — desde coleções de textos da era greco-romana a workshops virtuais. O poeta ultrajovem pode colocar no ar seus versos titubeantes, lado a lado com as homepages de Prêmios Nobel. Em segundos, você desloca-se por bibliotecas eletrônicas que oferecem, gratuitamente, obras de William Shakespeare, Carlos Drummond de Andrade, Pablo Neruda, Jorge Luis Borges, Katherine Mansfield, Bernard Shaw ou Miguel de Cervantes. Contam-se às centenas os grupos de discussão, fóruns, conferências e salas de conversação em tempo real sobre assuntos tão díspares como a literatura vietnamita e a poesia de Manuel de Barros. Nesses espaços em rede, circula o que se puder imaginar em matéria de permutas literárias: debates sobre autores e livros, críticas e resenhas, poemas, ensaios e contos, informes sobre congressos e concursos, comentários sobre a atualidade cultural, projetos acadêmicos, indicações de sites e periódicos especializados, etc. (1)

As bases literárias estocam e disponibilizam grande volume de dados, classificados por autores, gêneros e atividades criativas (poesias, contos, romances, ensaios, resenhas, estudos críticos, biografias, hiperficção). Organizam-se em seções temáticas, links e mecanismos de buscas, agrupados a partir de campos geoculturais comuns: literaturas brasileira, portuguesa, norte-americana, inglesa, francesa, italiana, espanhola etc. Para eles convergem acervos documentais de bibliotecas eletrônicas, catálogos Internet, centros de pesquisas, guias de autores etc. Os bancos de dados compreendem listagens de sites, repositórios de artigos, periódicos, materiais iconográficos e sonoros, catálogos e listas de discussão. (2)

Os usuários podem dispor ainda coleções de textos digitalizados, com downloads gratuitos de clássicos da literatura universal e obras de referência. Somente o Projeto Gutenberg (http://promo.net/pg), financiado por instituições públicas e privadas norte-americanas, disponibiliza mais de 2.500 títulos, entre os quais a Bíblia, dicionários, enciclopédias e textos de autores como Shakespeare, Henry James, Somerset Maugham, Katherine Mansfield, Bernard Shaw, Julio Verne, Conan Doyle e Charles Dickens. No Brasil, já existem importantes coleções eletrônicas, reunindo livros inteiros de Machado de Assis, Euclids da Cunha, José de Alencar, Lima Barreto, Joaquim Manuel de Macedo, Álvares de Azevedo, Aluísio Azevedo e Martins Pena, entre outros. Basta consultar os acervos de Textos Eletrônicos de Literatura Brasileira (http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/literatura/literat.html ), do Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística (Nupill), da Universidade Federal de Santa Catarina; da Biblioteca Virtual da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo (http://bibvirt.futuro.usp.br/index.html); da Virtual Bookstore (http://www.vbookstore.com.br/nacional/index.shtml ).

Sem sobrepor-se ou equiparar-se à literatura tradicional, a ciberliteratura sublinha a emergência de um ecossistema com interseções comunicacionais que possibilitam intercâmbios entre emissores-produtores e receptores-consumidores. É possível informar e ser informado quase simultaneamente. Não vejo exagero em falar numa explosão e-magazines literários. (3) Ora aparecem como ações pessoais, ora resultam de iniciativas de grupos e instituições, ora correspondem a versões digitais de revistas e suplementos de prestígio. Publica-se de tudo: poemas, contos, resenhas, ensaios, biografias, entrevistas, concursos, fotografias, ranking de best-sellers, narrativas hipertextuais... A regra, uma vez mais, é a coexistência das afinidades eletivas, em um campo permanentemente aberto à retroalimentação.

A Internet dissolve a subordinação a instâncias intermediárias (acadêmicas, mediáticas ou editoriais) e descentraliza os processos de edição, difusão e consumo de textos. Ao menos até aqui, inexistem hierarquias, comandos centrais ou limites preestabelecidos. A figura do autor reacende em importância estratégica: pode ser seu próprio editor e distribuidor; pode alterar ou atualizar as suas obras sem custo adicional; pode divulgar e debater o que produz por correio eletrônico, em listas de discussão, boletins e anéis de sites.

O ciberespaço funda uma ecologia comunicacional: todos dividem um colossal hipertexto, formado por interconexões generalizadas. (4) Trata-se de um conjunto vivo de significações, no qual tudo está em contato com tudo: os hiperdocumentos entre si, as pessoas entre si e os hiperdocumentos com as pessoas. A partir da hipertextualidade, a Web põe a memória de tudo dentro da memória de todos, numa malha de 800 milhões de páginas indexadas (o equivalente a seis terabytes de textos). (5)

Nos encadeamentos do hipertexto, cada ator inscreve sua identidade na rede à medida que elabora sua presença no trabalho de seleção e de articulação com as áreas de sentidos. O princípio subjacente ao hipertexto é o de que qualquer parte de um texto armazenado no formato digital (seqüência de caracteres que são reconhecidos e acessados por softwares específicos) pode ser associada automaticamente a unidades textuais armazenadas de igual modo. O clique sobre as palavras sublinhadas instrui o computador a ativar o acesso oculto por trás do link, projetando na tela o assunto requerido, quer ele esteja no mesmo documento ou em outras bases de dados. O usuário tem a alternativa de saltar de uma fonte a outra, em um itinerário sem começo nem fim. Os textos deslizam pelo monitor, em ritmo seqüencial, numa espécie de cibercolagem de interferências individuais e coletivas.

O hipertexto afigura-se, pois, como um texto modular, lido de maneira não-seqüencial, composto por fragmentos de informação, que compreendem links vinculados a nós. O percurso não-linear faculta novos gabaritos de intervenção por parte dos leitores. Conforme seus interesses e preocupações, a pessoa segue caminhos próprios e extrai sentidos dos dados localizados. Pierre Lévy observa que, na comunicação escrita tradicional, os recursos de montagem são utilizados no momento da redação. “Uma vez impresso, o texto material mantém uma certa estabilidade... à espera das desmontagens e remontagens de sentido a que o leitor se irá entregar.” Já o hipertexto digital aumenta consideravelmente o alcance das operações de leitura: “Sempre num processo de reorganização, ele [o hipertexto] propõe uma reserva, uma matriz dinâmica a partir da qual um navegador-leitor-usuário pode criar um texto em função das necessidades do momento. As bases de dados, sistemas periciais, folhas de cálculo, hiperdocumentos, simulações interativas e outros mundos virtuais constituem potenciais de textos, de imagens, de sons, ou de qualidades tácteis que as situações particulares atualizam de mil maneiras. O digital recupera assim a sensibilidade no contexto das tecnologias somáticas [voz, gestos, dança], mantendo o poder de registro e de difusão dos meios de comunicação.” (6)

De maneira análoga, na escrita colaborativa divisa-se a reciclagem de fórmulas inventivas e de técnicas de composição. A criação experimenta deslocamentos, variações e modulações— as “tempestades de constantes seqüências” de que nos fala Michael Joyce, pioneiro da hiperficção com Afternoon: a story. (7) Os hyperlinks reordenam a estrutura narrativa e a arquitetura ficcional, bem como dinamizam os itinerários de leitura e interpretação. O que é sólido pode ser também móvel, fluido, desenraizado e acessível a qualquer segundo.

Os fluxos interativos da Internet incrementam a composição literária coletiva, através de hipertextos que constróem romances, contos e poemas com a interferência de usuários. Leitores participam da construção de romances e contos interativos. A obra desliza pelo monitor, em composição seqüencial, numa espécie de cibercolagem de interferências coletivas. A antiga estrutura do texto final convive agora com a escrita não-linear, seqüencial e atualizável do espaço virtual. (8). Esboça um novo tipo de escritor — batizado de autor eletrônico —, que se vale de suportes infoeletrônicos para a formulação de narrativas hipertextuais e/ou para a integração dos leitores ao processo criativo. (9)

As hipernarrações, também chamadas de escritas colaborativas, atraem usuários para os sites The Written Word (http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/1810 ), Writers Workshop (http://www.romance-central.com/Workshops/ring.htm ) e Infine (http://twine.stg.brown.edu/projects/hypertext/landow/HtatBrown.hotelmoo.html ), este um programa de ações hipertextuais, incluindo roteiros para cinema. Surgem páginas de poesia coletiva, como a norte-americana Poetry Web (http://cnsvax.albany.edu/~poetry/webs.html ) e a italiana Ipertesto Colaborativo di Media/Mente (http://www.uni.net/mediamente ). Cada participante tem direito a acrescentar um verso, alternadamente. Funcionam, inclusive, ateliês de criação literária on line. As inscrições são feitas por e-mail. O professor-escritor orienta o aprendizado das técnicas hipertextuais e avalia o andamento das hiperficções boladas pelos alunos. Depois, os trabalhos são debatidos pelo grupo, em e-mails e chats.

2. Novos suportes, antigos dilemas

O fenômeno da literatura virtual vem suscitando questionamentos — às vezes apaixonados, ranhetas ou apocalípticos — sobre o futuro da expressão escrita e do próprio livro. Em 1964, Marshall McLuhan previa que as tecnologias eletrônicas suplantariam os veículos impressos. “O poeta Stéphane Mallarmé pensou que ‘o mundo existe para acabar em um livro’. Agora, estamos em condições de poder ir mais além e transferir todo o espetáculo para a memória de um computador”, sentenciava McLuhan. (10) Se vivo fosse, o teórico canadense estaria publicando seus livros, como a autenticar o fracasso de seu vaticínio. Em contrapartida, a revolução informacional confirmaria a sua pressuposição de que as redes eletrônicas se incumbiriam de projetar para fora do cérebro humano “um vivo retrato do sistema nervoso central”, interligando as atividades cotidianas como feixes de neurônios.

Contudo, existem intelectuais que desconfiam do computador. Não adianta ponderar que estamos ingressando na era dos set-top boxes digitais, equipamentos concebidos para unificar os circuitos de Internet, televisão a cabo e telefonia. O romancista Antônio Torres reluta em memorizar lições de informática e não se deixa dobrar facilmente pelos apelos da Internet. Quando quer se comunicar com rapidez com amigos e editores, ou enviar algum material urgente, usa o endereço eletrônico de sua mulher, a professora Sônia Torres. Até os e-mails de leitores são amavelmente respondidos por ela. Guillermo Cabrera Infante, escritor cubano radicado há uma década em Londres, garante não estar familiarizado com a Web, nem com CD-ROM, muito menos com “qualquer um dos métodos espetaculares de conhecimento”. Desafia as inovações: “O livro existe há três mil anos. É muito difícil abandonar um hábito querido.” No escritório do autor de La Habana para infantes difuntos, ocupa lugar privilegiado um computador presenteado pela família. Ele raramente o liga. (11)

Torna-se indispensável demarcar os territórios em tensão. De um lado, os cultores de paradigmas clássicos, para os quais a literatura se materializa unicamente no papel. Esta corrente recusa a pertinência dos fluxos tecnológicos na criação artística. O mundo eletrônico diluiria a aura da obra literária, substituída pelo encantamento high tech. A abundância desordenada das redes dificultaria reflexões críticas conseqüentes.

Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira dos Escritores e destacado crítico literário, alerta para os efeitos da hipervelocidade no domínio cultural. A seu ver, determinadas atividades humanas não se ajustam à lógica da urgência, sob pressão da mídia e das tecnologias de informação. Ele salienta que a criação e a fruição literárias demandam tempos mais demorados, enquanto que na mídia prevalece o imediatismo. E acrescenta: “O tempo da produção literária nem sempre se coaduna com a velocidade de acesso às matrizes do saber. O vagar da reflexão crítica e da elaboração artesanal da obra se choca com a fugacidade das impressões da era da imagem. Uma coisa é o prazer da demorada leitura de um texto literário, sua fruição estética; outra coisa o deleite vertiginoso de um videoclipe. A literatura necessita de pausas, enquanto a linguagem da publicidade vive do bombardeio ininterrupto de mensagens sobre o consumidor potencial aturdido.” (12)

De preocupações semelhantes às de Fábio Lucas compartilha o escritor mexicano Carlos Fuentes. Nem quer ouvir falar em computador: “Escrevo como no século XIX. Escritores como Balzac, Juan Goytisolo e William Styron escreviam à mão e com pena. Estou demasiado acostumado e feliz com a comunicação que existe entre minha mente, meu coração, minha mão, minha pena e meu papel. Tudo flui com grande rapidez. Diz-se em inglês que não se pode ensinar a um cachorro velho truques novos. Gabriel García Márquez, que escrevia à mão, um dia, já tarde, descobriu o computador e para ele se voltou louco de gosto. Diz que escreve muito mais rápido. Eu não; não sei como manejar um aparato desses. Sou um idiota mecânico. Mas, com uma pena, vou longe, com uma velocidade que não alcanço sequer com a máquina de escrever.”

No caso da Internet, o pensamento de Fuentes move-se em ziguezague — ora zangado e impaciente, ora simpático e condescendente. A comunicação por e-mail parece-lhe razoável, mas se queixa das mensagens indesejáveis e das “solicitações cretinas” que lhe chegam à caixa postal. “É uma invasão da intimidade”, ralha, acrescentando que adoraria limitar a correspondência aos amigos. Ressalvando que as inovações técnicas nunca lograram derrotar o espírito criativo — e, em algumas ocasiões, até o incentivam —, Fuentes reage com vigor quando se intenta soldar o desenvolvimento literário a ferramentas eletrônicas: “Não aceito que a Internet sacrifique a comunhão profunda e secreta que é a leitura, algo que não se pode alcançar em nenhum outro meio. Esse ato de comunhão, para mim, é um ato insubstituível, muito parecido com o ator de amar. É muito difícil amar numa tela; seria uma forma de onanismo. O livro é um ser de carne e osso.” (13)

Se Fábio Lucas e Carlos Fuentes levantam objeções contra a literatura eletrônica, no lado oposto situam-se os profetas da decadência do livro impresso. Entre as vantagens insuperáveis do livro digital, enaltecem a natureza e o alcance de sua difusão; a distribuição em largo espectro, sem dependência a redes livreiras e meios de transporte; o baixo custo de edição, sem gastar papel; liberdade de publicar textos de qualquer tipo ou tamanho; buscas em arquivos literários de ponta; novas possibilidades de criação ficcional e poética. Em tom apocalíptico, o escritor uruguaio Juan Grompone sustenta que o livro impresso está em vias de extinção: “Não quero dizer que vá desaparecer em cinco anos, mas está condenado à morte. Vivemos em um mundo de imagens, onde as cores e as formas nos condicionam totalmente. Creio que continuarão sendo publicadas as obras de grande qualidade, com tiragens limitadas, excelente papel, ilustrados à mão, essas coisas que são quase artesanais.” (14)

A polarização acima descrita embute um falso dilema. Em primeiro lugar, livro não é fetiche, seja ele de papel, de pano ou eletrônico, esteja ele em volume encadernado, em CD-ROM, disquete ou na Internet. Qualquer suporte que dissemine informações favorece, em maior ou menor grau, a socialização da cultura — e parece indubitável que a infra-estrutura das redes constitui um poderoso canal de distribuição. Ela descentraliza e barateia o processo editorial, libertando-o do atrelamento inevitável às diretrizes mercadológicas, industriais e mediáticas. As ferramentas eletrônicas contribuem igualmente para preservar a memória literária, em acervos digitais com gigantesca franquia para estocagem. Obras raras voltam a ser acessíveis. Sem contar as inovações de escrita e leitura que se descortinam nas narrativas hipertextuais.

Mas o livro impresso não perdeu e nem perderá a sua vitalidade. A começar pelo fato de que se adapta a variados contextos socioculturais, abarcando idiomas e linhas de pensamento. É facilmente transportável e não depende de dispositivos para ser utilizado; sua durabilidade não está sujeita aos ciclos de obsolescência tecnológica, como pode ocorrer, por exemplo, com um CD-ROM (títulos impressos há séculos continuam legíveis); engendra protocolos de leitura até aqui insuperáveis. Ler diante da tela cansa, dificulta a concentração e às vezes entedia. Entretanto, o texto exibido no monitor pode chegar ao papel e ser lido na praia ou no táxi — basta apertar o botão para a impressora materializá-lo. Ainda assim, o conforto proporcionado pelo desfrute do livro dificilmente será ultrapassado pelo mais leve e funcional dos computadores portáteis.

Por que necessitamos de livros? Derrick de Kerckhove responde com uma analogia entre o ritmo febril dos bits e a leitura cadenciada no papel. O diferencial da literatura consistiria em contrapor-se à velocidade dos sistemas eletrônicos, devolvendo as pausas e o tempo necessário ao mergulho na imaginação. A obra impressa funcionaria como “desacelerador consumado”, como explica: “O livro é fixo, estável e estabelecido, e esta estabilidade é crucial. Porque hoje o desafio não é acelerar a informação, mas torná-la mais lenta. (...) Nossa cultura é absolutamente obcecada em acelerar todos os aspectos das atividades humanas e as formas de nos relacionarmos com elas. O que precisamos é desacelerar e construir sentidos no nosso relacionamento com a informação, para negociar com ela em um ritmo adequado. O tempo tecnológico é ultra-rápido e fora de controle. Para controlá-lo, temos que jogar golfe ou ler livros. (...) No ambiente eletrônico, o papel dos livros é, então, o de desacelerar a informação e, subseqüentemente, acelerar o pensamento, dando às pessoas tempo para pensar sobre isto e tornar o processo de leitura um capacitador de conhecimento.” (15)

A eficácia do suporte literário virtual depende de sua capacidade de oferecer elementos operativos que satisfaçam demandas culturais, liberando avanços que as tecnologias anteriores não alcançaram. É o caso da hiperficção on line. A primeira versão de um escrito pode ser modificada a partir de comentários e sugestões por correio eletrônico ou em grupos de discussão. Em idêntico diapasão, tornam-se exeqüíveis obras de autoria coletiva, envolvendo pessoas que talvez nunca tenham se visto ou sequer falado por telefone ou carta. Outra evolução que se insinua: periódicos eletrônicos publicam documentos literários de todo e qualquer tamanho — de pequenos opúsculos a volumes inteiros de domínio público, dos haicais de menos de oito linhas às 450 páginas de Os Sertões, de Euclides da Cunha, disponíveis nos Textos Eletrônicos de Literatura Brasileira.

3. Por uma dialética entre real e virtual

O livro coexistirá com a televisão, a multimídia e a realidade virtual. Assim como a imprensa não suprimiu os manuscritos. O próprio livro foi combatido pelos epígonos da cultura elitista da Idade Média. Os benefícios da impressão mecânica não se impuseram de imediato. Durante muito tempo ela dividiu a cena com os pergaminhos, até se consolidar como meio que possibilita uma circulação social mais rápida, barata e abrangente. As sociedades valem-se de distintas tecnologias de comunicação, ao mesmo tempo. Os suportes são empregados em função de seu uso social. A escrita manual relaciona-se à comunicação pessoal, enquanto o computador é utilizado com freqüência no trabalho, de diversas maneiras, e para a informação e o entretenimento, através das redes informáticas, do CD-ROM e de jogos eletrônicos. Para o contato instantâneo à distância, o telefone continua insuperável. Outras circunstâncias pedem o fax, o correio eletrônico, o pager ou a carta registrada.

Não será outra a lógica que, mais cedo do que se espera, presidirá as fronteiras de complementaridade entre as literaturas impressa e digital. Primeiro, porque não precisamos abrir mão do agradável prazer da leitura para navegar por publicações on line, e vice-versa. Acabamos por acumular dados e experiências que nenhuma das partes sozinha poderia exibir. A convergência entre o setor editorial e as indústrias multimídias, em especial nos EUA traduz-se na hibridação de recursos e processos tecnológicos para gerar rentáveis produtos associados a best-sellers impressos, como filmes, seriados televisivos, CD-ROMs, vídeos, DVDs (Digital Video Disc), CDs, videogames, videoclipes e jogos on line. A conjunção de atividades revela-se crucial para reposicionamentos mercadológicos, notadamente numa conjuntura econômica marcada por altíssima taxa de expansão de conhecimentos científicos e de contínua renovação de sistemas e métodos produtivos. (16)

É verdade que nunca o livro e a leitura estiveram tão vivos. Só nos Estados Unidos, maior mercado do planeta, são vendidos anualmente cerca de 325 milhões de livros por ano, com receita estimada em mais de US$ 21 bilhões. Na década de 1990, de acordo com a Câmara Brasileira do Livro, o número de exemplares vendidos em nosso país registra crescimento recorde, em torno de 64%. (17)

O escritor e acadêmico Carlos Heitor Cony não esconde sua preferência pela obra impressa. “Tenho da leitura um prazer específico quando pego um livro tradicional, feito de papel e letras impressas no velho sistema guttemberguiano. Aprecio a capa, o cheiro, até mesmo o peso do volume. Posso ler o livro em diversos lugares, na posição que escolher. Se um trecho me impressiona, se uma frase merece ser destacada, tenho o recurso da anotação. Uma de minhas maiores emoções é quando releio um livro cuja primeira leitura foi feita há muitos anos e encontro uma observação antiga. Procuro imaginar o que senti, o que me levou a anotar aquele trecho ou aquela frase.” (18)

Mas o mesmo Cony reconhece e realça “a inesperada importância que a linguagem habitual do livro, a literária, feita de letras, sintaxe e morfologia, ganhou com o advento da linguagem digital”. Em seu entender, jovens entre 25 e 30 anos, que já resistiam à linguagem
das letras, uma vez que foram educados a partir de imagens e ícones da cultura visual contemporânea, começam a se voltar para a linguagem escrita, estimulados sobretudo pelo correio eletrônico. “Acontece que, com a linguagem digital colocada em circuito pela rede eletrônica, os jovens que agora estão chegando à fase do consumo de informações, por bem ou por mal, estão voltando à expressão literária, rudimentar embora, mas sujeita ao aprimoramento natural determinado pela
própria necessidade de se exprimir. Não faz muito, um jovem normal, independente de sua escolaridade, possuía um vocabulário padrão, paupérrimo, reduzido ao mínimo, ao ‘legal’, ao ‘morou’, ao ‘cara’ e a outras simplificações que de certo modo eram
bastantes para a comunicação entre os iguais. Com a chegada dos e-mails, dos sites virtuais, essas necessidades aumentaram e, embora continuem a ser usados símbolos, ícones e imagens, nota-se que a palavra impressa literariamente é indispensável. Daí a
sobrevivência da linguagem propriamente dita, em sua forma convencional,
que não será vencida pela linguagem meramente visual e animada.” (19)

Com efeito, o livro eletrônico, hipertextual, introduz três vetores novos que devem ser levados em conta, segundo André Parente: “1) a velocidade da transmissão e recuperação dos textos aumenta enormemente; 2) o leitor pode se inserir na escritura, interagir, transformar, traduzir, imprimir, enfim, ele pode mapear o texto utilizando certas dinâmicas que lhe permitam interrogá-lo de forma jamais vista; 3) ele pode ainda criar textos em grupo utilizando os sistemas de groupware”. (20) Rapidez, disponibilização ininterrupta e descentralizada, percursos criativos pelos nós da rede e acessos ilimitados a acervos on line — eis os principais diferenciais que reconfiguram as formas de expressão, difusão e usufruto dos materiais literários. Não será outra a explicação para o aparecimento em série de editoras virtuais e dos chamados e-books (como o recente Miséria e grandeza do amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro).

Na vertigem dos nós, um número cada vez maior de obras pode ser produzido, veiculado, lido e analisado, numa prova eloqüente das interseções possíveis entre real e virtual, dentro de um conjunto de ambientes integrados e auto-ajustáveis, sob a primazia da inteligência humana. Por que isolar as variáveis eletrônicas dos tesouros impressos? Esqueçamos as referências imutáveis, o apego a crenças enrijecidas que geralmente conduzem a dogmatismos. Optemos por uma dialética de complementaridades, interinfluências e fertilizações mútuas entre o real e o virtual. Até porque, arrisca Roger Chartier, os autores não escrevem livros; escrevem textos que se transformam em objetos escritos, manuscritos, impressos e, agora, virtuais.

NOTAS
(1) Ver, por exemplo, DialogNet Literary Email Lists (http://server.snni.com/~palmer/literature.html), com listas sobre 200 escritores de várias nacionalidades e idiomas. A subscrição, gratuita, é feita por e-mail. (

2) Algumas expressivas bases literárias na Web: Literary Resources (http://andromeda.rutgers.edu/~jlynch/Lit/other.html ), em inglês; Le tissu littéraire du Web (http://beehive.twics.com/~berlol/relion2.htm ), em francês; Viajero Virtual (http://www.ucm.es/info/especulo/viajero/turista4.htm ), em espanhol; Endereços de Literatura, Poesia e Línguas (http://orion.ufrgs.br/faced/slomp/literat.htm ) e Jornal de Poesia (http://www.secrel.com.br/jpoesia/poesia.html ), em português; Projeto Vercial (http://www.ipn.pt/literatura/index.html ), sobre literaturas de língua portuguesa; Letteratura italiana (http://www.vc.unipmn.it/links/li_let.htm ), em italiano; Literatur im Internet (http://www.zeit.de/littwett/surftips.html ), em alemão; Japanese Literature (http://lang.nagoya-u.ac.jp/~matsuoka/Japan.html#Literature ), em japonês.

(3) Entre os periódicos literários eletrônicos, destaco Espéculo (http://www.ucm.es/info/especulo ), em espanhol; Revista Brasil de Literatura (http://members.tripod.com/~lfilipe ), em português; Zazieweb (http://www.imaginet.fr/zazieweb/zazie2sommaire.html ), em francês; e as versões on line doThe New York Times Books (http://www.nytimes.com/books ) e da The Paris Review (www.voyagerco.com/PR ), em inglês. Recomendo os guias de e-magazines The Zuzu’s Petals Literary Resources (http://www.zuzu.com ); Yahoo Literature (http://dir.yahoo.com/Arts/Humanities/Literature ) e Poets & Writers — Literary E-Zine (http://www.pw.org/mag/ezines.htm ). Vale a pena também consultar a criteriosa seleção de páginas e publicações literárias feita pelo site brasileiro Revista A (http://www.revistaa.com.br/links/links_literatura.htm ).

(4) Emprego os termos ciberespaço e cibercultura nas acepções propostas por Pierre Lévy. Ciberespaço é o novo meio de comunicação que emerge da interconexão mundial das redes de computadores. Engloba não somente a infra-estrutura material da comunicação digital, como também o oceano de informações que abriga ao mesmo tempo os seres humanos que por ele navegam e o alimentam”. Cibercultura designa o conjunto de técnicas materiais e intelectuais, de práticas, de atitudes, de modos de pensar e de valores que se desenvolvem paralelamente ao crescimento do ciberespaço. Ver Pierre Lévy. Cyberculture. Rapport au Conseil de l’Europe. Paris: Odile Jacob, 1997, p. 17.

(5) A estimativa sobre o número de páginas indexadas consta de estudo dos pesquisadores ingleses Steve Lawrence e C. Lee Giles, divulgado na edição de 7 de julho de 1999 da revista britânica Nature.

(6) Pierre Lévy. A inteligência coletiva: para uma antropologia do ciberespaço. Lisboa: Instituto Piaget, 1997, p. 72. Consultar, do mesmo autor, As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993, p. 25-26. Ver também George P. Landow. Hypertext 2.0. The convergence of contemporary critical theory and technology. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1997.

(7) Entrevista de Michael Joyce ao Autor, em 14 de dezembro de 1997. Afternoon: a story desenrola-se em torno de um acidente de carro que pode ou não ter acontecido. Tudo depende da navegação do leitor pelos meandros da narrativa. A cada clique do mouse, sobrevem uma cena, um novo personagem surge, uma nova versão dos fatos é conhecida. Michael Joyce escreveu o romance depois de ter se unido a um programador para criar um software que permitisse criar um “texto em teia”. Hoje, o programa é a base da maioria dos hiperlivros encontrados na Internet.

(8) Joaquín Maria Aguirre Romero. El futuro del libro. Disponível em http://www.ucm.es/OTROS/especulo/numero5/futlibro.htm .

(9) Eis um exemplo de escrita colaborativa. Le Bouquin du Web (http://www.2icompany.com/pages/indexlivre.html) convocou leitores de língua francesa a intervirem na elaboração de um romance policial em rede. O editor J. J. Brissiaud redigiu o primeiro parágrafo: “Franck, alcoólico inveretado, barrigudo, modesto funcionário da Caixa de Assistência à Doença, de Paris, testemunhar de seu ponto de observação favorito (o bistrô de seu amigo Paul) à morte de um misterioso homem louro por uma misteriosa mulher morena. No momento de morrer, o homem louro, que se chamava Pietroj, remeteu Franck para uma outra dimensão.” Para garantir razoável organização aos trabalhos, estabeleceu-se um faixa horária diária para o envio de colaborações. Os acréscimos incongruentes ou incoerentes iam sendo excluídos pelo editor. O resultado superou as expectativas: de 27 de novembro de 1997 a 6 de junho de 1998, cooperaram 12 franceses, quatro canadenses, um belga, um tunisiano, um luxemburguês e um sírio. Coube a Brissiaud dar por encerrado o romance.

(10) Marshall McLuhan. Os meios de comunicação como extensões do homem. 4a. ed. São Paulo: Cultrix, 1974.

(11) Guillermo Cabrera Infante, citado por Nuestro Mundo, 10 de dezembro de 1997.

(12) Ver de Fábio Lucas: “Reflexões sobre a literatura na era eletrônica”, em Quinto Império — Revista de Cultura e Literaturas de Língua Portuguesa, nº 8, segundo semestre de 1997; “Literatura versus velocidade eletrônica”, em O Escritor, outubro de 1997.

(13) Carlos Fuentes. “Internet, el escritor y el Tercer Mundo”, El País Digital, 21 de outubro de 1998.

(14) Juan Grompone, citado por Patrícia Turnes. “Yo libro, tú computadora”, em Brecha (edição Internet). Disponível em http://www.brecha.com.uy/numeros/n635/apertura.html

(15) Derrick de Kerckhove. Connected intelligence: the arrival of the Web society. Toronto: Somerville House Publishing, 1997, p. 122-123.

(16) Consultar Dênis de Moraes. O Planeta Mídia: tendências da comunicação na era global. Campo Grande: Letra Livre, 1998, p. 69.

(17) Ver Dênis de Moraes. “Palavras parabólicas: o mercado editorial na era da mundialização cultural”, Revista Brasil de Literatura, ano II, 1999. Disponível em http://members.tripod.com/~lfilipe/denis.htm

(18) Carlos Heitor Cony. “O homem e a roda”, Folha de S. Paulo (Ilustrada), 17 de abril de 2000.

(19) Carlos Heitor Cony. “O fim do livro e a eternidade da literatura”, Folha de S. Paulo (Ilustrada), 8 de setembro de 2000. Cony percebe efeitos semelhantes nas crianças de 10 a 12 anos, “que sentem necessidade cada vez maior de comunicação impressa”. E completa: “Aos poucos, eles estão descobrindo o universo literário em sua acepção mais clássica, precisam lidar com sujeitos, verbos e complementos, dar valor a determinadas palavras, juntá-las de forma articulada e pessoal. Ou seja: é um retorno à literatura. E, gradualmente, esse universo irá se ampliando. É impressionante o número de e-mails que recebemos de jovens, na fase dos 14 aos 15 anos, divagando sobre temas os mais variados, e muito
deles insensivelmente apelando para pequenos contos ou crônicas — recurso
impensável antes da Internet, pois só era usado em salas de aula que
ajudavam a formar o desdém pela linguagem literária impressa.”

(20) André Parente. “O hipertextual”, Revista Famecos, nº 10, 1999. Disponível em http://ultra.pucrs.br/famecos/10-17.html


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Dênis de Moraes, pós-doutor em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, é professor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Imagem e Informação da Universidade Federal Fluminense. Publicou, entre outros livros, O Planeta Mídia: tendências da comunicação na era global (Letra Livre, 1998) e Globalização, mídia e cultura contemporânea, org. (Letra Livre, 1997).