Ciberpoética: três poetas on-line[1]

José Augusto Mourão

http://www.educ.fc.ul.pt/hyper/resources/jmourao/3poetas.htm#_ftn1

I feel that the future of writing is in Space, not Time.

William S Burroughs

 

Il y a encore des générations mortes qui font des livres pudibonds.
Même des jeunes: des livres charmants, sans prolongement aucun,
sans nuit. Sans silence. Autrement dit: sans véritable auteur.

Marguerite Duras

1. O Centro de Estudos de Comunicações e Linguagens da Universidade Nova de Lisboa lançou, com a Casa Fernando Pessoa, e por iniciativa minha, o projecto que dá pelo nome de “Poesia Em Ciberescrita”, ainda disponível hoje na Internet, na página “Inter@ctividades” (http://www.interactividades.pt/pc.html). Esse projecto envolveu três grandes poetas portugueses: Nuno Júdice, Vasco Graça Moura e Pedro Tamen que, no período compreendido entre 15 de Fevereiro e 21 de Março, produziram uma ciberobra composta por um total de 90 poemas.

2. Este projecto é um veículo desenhado para autores que têm uma certa afinidade com a concepção da escrita não-linear e a tradição da escrita da literatura experimental mas, até aqui, estranhos tanto ao hipertexto contemporâneo como à navegação através dos laços HTML.O hipertexto responde à aceleração instantânea, à pertinência do contexto da sua actualização, à retroactividade, isto é, às texturas complexas da troca (do mote ou conector) em tempo real, sem perda da objectivação do texto escrito. O texto final é um tecido comum dos poetas envolvidos no projecto de ciberescrita, que interroga, pelo seu modo específico e progressivo de construção, a noção de autor e de estilo, assim como a própria pertinência da assinatura.

3. Trata-se, antes de mais, de uma provocação de trabalho poético em cadeia, segundo lances de conexões que podem ser tematizadas ou não, desde um texto-embrião lançado a quem primeiro dele se aproprie e suscitando outros textos, em expansão livre, desembocando num texto final. Há uma expressão neste ciberpoema que resume bem o “trabalho” desenvolvido: “e os três baralharam e tornaram a dar”. É exactamente esse espaço de jogo que se pretende praticar. A experiência hiperpoética começa por alguns versos escritos em hipertexto. Formas possíveis: um mote que um primeiro poeta lança, via E-mail, para o sítio Interactividades; colagem, género magusto poético; enunciados que contêm palavras-chave que levarão um segundo poeta a começar o seu trabalho poético, deixando a um seguinte uma figura conectora (uma palavra-chave em itálico, v.g.). Podem escolher novos possíveis narrativos, novos motivos, etc. É a criação em contínua evolução. Aos visitantes apenas será dado presenciar (de fora) a gestação do poema colectivo, sem poderem interferir no jogo textual dos poetas. Um gestor tornará disponíveis as intervenções dos poetas no sítio Interactividades onde se fará a gestão diária dos efeitos da ciberescrita. Um password deverá assegurar a entrada no sítio a cada uma das intervenções.

4. Tratava-se, antes de mais, de poemas a criar...

Ao nível da criação, previam-se duas opções: uma opção literária, outra de arte visual. Um co-navegador poderia criar imagens: personagens ou lugares descritos ou qualidades evocadas. Poderia também inspirar outros criadores literários propondo-lhes “mundos”, personagens que seriam colocados num banco de imagens facilmente acessível. Em resumo, o poeta inspiraria um segundo poeta e o infográfico do mesmo. Os redactores e os desenhadores estimular-se-iam mutuamente, sem esquecer o simples leitor que terá sempre um enorme prazer em ler os textos e em olhar as imagens. Em hiperpoesia o leitor e o redactor são transportados para uma nova realidade telemática. Neste caso português, de facto, só a opção literária ganhou terreno, e em recinto fechado. Não há, efectivamente, nada de comum entre o mundo evocado na ficção ciberpunk e esta poesia em que, verdadeiramente inovado, é só o suporte tecnológico. A página de “Poesia em Ciberescrita” não vai tão longe quanto os meios tecnológicos disponíveis já permitem.

5. A nossa proposta inscreve-se na paisagem em que emergem as tecnologias do hipertexto/hipermedia. É notório que uma nova poética emerge, um novo regime de significação figurativo emerge, por via dos media electrónicos, ligados em particular à cultura pós-moderna, obrigando a repensar os regimes de significação discursivo e de significação figurativa. Chamemos-lhe “poética do hipertexto”[2].

Um hipertexto é uma paisagem (multimedia) em movimento onde cada um, à partida, solitariamente navega, electronicamente seduzido pelo princípio do prazer, até chegar a uma “read-write form”, uma construção significante, interlocutiva. Não o texto como uma rígida colecção de regras ou de procedimentos técnico-formais, acabado, mas como um percurso generativo, construtivo, de formas e de significância. A metáfora hipertextual transporta uma particular visão utópica da informação na última fase da literacia. É uma metáfora próxima daquilo que Hakim Bey descreve, uma TAZ, que é um estado transicional na rede total de informação em que “islands of functionning anarchies appear fleetingly only to eventually fail in their development as fully-fledged universal autonomies and Utopias”[3].

6. Os sistemas de leitura/escrita colectiva no ciberespaço de que o Wordld Wide Web é o exemplo típico, instauram ainda um novo dispositivo de comunicação em que todos os textos participam no crescimento de um único e intotalizável hipertexto. Esvai-se entretanto a distinção entre autor e leitor e a distinção entre os textos. Não se trata, como observa P. Lévy, de “somar ou misturar textos numa espécie de meio numérico oceânico, mas de propor ainda a articulação aberta e o diálogo de uma multidão de pontos de vista”[4].

7. A escrita, que vivia da hesitação entre a língua e a fala, deslocando-as, vive hoje uma outra deslocação, orientando-se para aquilo a que se convencionou chamar “hipertexto”. A escrita hipertextual é antes de mais virtual, maleável e ubíqua como o pensamento, feita de uma temporalidade “alargada”, próxima da conversação. O centro de gravidade do hipertexto desloca-se de um écran a outro, ou como escreve Derrick de Kerckhove, “o conteúdo do hipertexto é o “ça” colectivo, não o eu privado”[5]. Enfim, o hipertexto responde à acelaração instantânea, à pertinência do contexto da sua actualização, à rectroactividade, i.é., às texturas complexas da troca humana em tempo real, sem perder a objectivação do texto escrito, e à multimedialidade. Não se trata apenas de tornar a escrita interactiva, reticular, mas de fazer com que ela se torne um meio de elaboração mental colectiva em tempo real, pensamento colectivo.

8. As tecnoculturas associadas às novas tecnologias da informação têm os seus padrões estéticos. A ciberpoesia destaca-se do paradigma emergente como uma forma inovadora ligada a um pensamento pósmoderno crítico. Trata-se de um jogo de estética ou trata-se, de facto da emergência de uma nova poética, em ruptura com o paradigma logográfico precedente? Infinitamente reproduzível, o hipertexto é radicalmente igualitário, reduzindo todas as coisas escritas à condição do literário antes da instituição da Literatura. Os “zeladores” da “boa poesia” criaram já uma página para acabar com a “má” poesia na Internet, o que prova que não se abandonou ainda a ideia da Literatura como um facto de valor[6]. A poesia acústica e electroacústica ou a poesia visual encontram-se sob a forma de hipertexto[7]. A Poesia Visiva colocou algo que Lotman assinala com precisão: as fronteiras entre palavras e imagem não são fronteiras, são filtros. Os futuristas misturavam poesia, pintura, teatro, música, etc., fazendo desaparecer as divisões tradicionais das linguagens. jacobson encontrou nas poesias de todas as culturas analaisadas um mesmo princípio, o paralelismo, ou seja, a capacidade da linguagem verbal de organizar-se a ponto de suspender a sua própria linearidade. O hipertexto pode considerar-se como a materialização da metáfora romântica do texto como organismo vivo, mas o seu desafio maior (pelo menoso da ciberpoesia) é romper com o espaço da linearidade, emular as artes visuais. Nunca a máxima horaciana ut pictura poesis nfoi tão pertinente. Uma outra característica , e não menor, a poesia não é um discurso voltado para a eficácia ou a informação, mas antes um sítio ilocutório, um lugar de distribuição dos lugares possíveis dentro da linguagem. Tornada interactiva, a poesia permite explorar as ligações verticais entre as várias “falas”, tanto pelo(s) autor(es) como pelo(s) leitor(es), desconstruindo assim a ordem hierárquica, hierática, que coloca o poeta junto dos deuses e os leitores na posição da admiração ou do fascinio. Os novos papeis de ciberautor e ciberleitores tornam obsoletos os antigos papeis do autor e do leitor.

9. Os criadores de ciberpoemas viram no hipertexto mais do que um armazém onde depositar, transcrever, a sua propriedade poética na Rede. O ciberpoema pode ir do jogo com a representação gráfica da palavra (animação das letras, v.g.) até à sua transformação em som e/ou imagem, podendo ir até à interactividade total, permitindo que o leitor colabore na criação do poema, acrescentando ou modificando o teatro do texto que o ecrã encena. O novo medium expropria de facto aquele que desde sempre viveu protegido dos deuses, ocupando o lugar da Pítia solene. As propostas da poesia concreta encontram neste novo medium a passagem para ultrapassar as experiências modernistas (futurismo e dadaísmo) já esboçadas nos programas da poesia concreta e do surrealismo enquanto crítica do logocentrismo - desde o uso do “lettering” e do “layout”, à utilização da cor, do movimento, da materialidade. Por um lado, o hipertexto permite a organização do texto segundo critérios que enfatizam os valores gráficos e fónicos relacionais das palavras, uma apresentação “verbovocovisual” como Haroldo de Campos pretendia[8]; por outro, a tecnologia do hipertexto permite “literalizar” conceitos como o de intertextualidade ou de polissemia.

10. “A avó de O´Neill” é o primeiro texto que se nos oferece ver e que desencadeia a série dos outros 89 seguintes. Este primeiro poema convoca as experiências como o primeiro motivo intertextual, convocando a seguir o topos do cemitério marinho e a injunção tentar tudo outra vez. Estes três motivos servem de conectores, ou mote, se preferirem, que permitem por sua vez ao leitor escolher, construir uma rede de leitura algo aleatória, a seu bel prazer, da sua única responsabilidade. O efeito da leitura variará consoante as escolhas feitas, o jogo está aberto, que cada um decida o seu caminho de leitura e de jogo.

“Como não voltar? É necessário perder-se. Eu não sei. Tu aprenderás. Eu queria uma indicação para me perder. É necessário não ter segundas intenções, dispor-se a não mais reconhecer nada do que se conhece, dirigir os passos par o ponto mais hostil do horizonte, espécie de vasta extensão de pântanos que mil taludes atravessam em todos os entidos não se sabe porquê” - é assim que começa o belíssimo livro de Duras, O Vice-Cônsul[9]. O percurso da mendigante ilustra magnificamente a navegação no pântano da ciberescrita, as maneiras de se perder, a partida falsa, os regressos, os falsos endereços, as palavras-chave que se repetem (“vento”, o poema 10 e no poema 84, “Os automóveis dormem. Na discoteca”) sem estarem interligadas. Qualquer leitor notará a possibilidade do retrocesso (por exemplo, a “melancolia” do poema 44, “Soma”, dá acesso ao poema 45, “para a educação sentimental”.

Nuno Júdice dirá a Helena Barbas que seria complicado continuar “porque as pessoas acabam por se perder. Depois, em termos da própria página, apercebi-me de que a partir de certa altura começa a ser pouco operativo chegar aos textos mais recentes. Há um caminho a percorrer que se torna muito longo e labiríntico. Parámos no momento ideal” (Ibidem: 74).

11. Desta experiência pioneira entre nós ficou a experiência limitada do que é ler e escrever poesia interactivamente. Quebrou-se o feitiço, quebrou-se o jogo de adivinhação, o anonimato: os três poetas não resistiram a publicar cada um a sua “parte” neste banquete. Voltamos à linearidade, à assinatura, à propriedade. Conste a nota abaixo com os impedimentos de reprodução e a fórmula dos direitos de autor. Cabe até perguntar se houve de facto uma tecitura comum aos três poetas que participaram neste projecto, ou se foi cada um a glosar, a parodiar o poema do seu sócio, separadamente.

Não faltam experiências similares um pouco por todo o mundo, uma mais ousadas do que outras - a questão maior é sempre a questão de suporte tecnológico. Não pode iludir-se esta questão: esta foi uma experiência entre “pares”, autores consagrados, cada um perfeitamente identificado no mapa da literatura portuguesa. O resultado - apesar da pobreza do suporte utilizado - é de monta. Não há comparção possível, em termos de qualidade poética, entre este ciberpoema e a maioria dos seus congéneros estrangeiros.

12. A emergência de tecnologias como o hipertexto/hipermedia emprestou uma força material forte às teses pós-estruturalistas sobre a heterogeneidade dos textos e a intertextualidade, ou sobre o descentramento da subjectividade e da noção de autor, bem como um significado mais visível à tese de que o leitor recria o texto na sua leitura (Edwards, 1994). A cultura (e a poesia) passou a ser inseparável dos meios técnicos e materiais que a constituem. A ligação hipertextual em si não é nunca prova de criação - não basta preencher uma página com ligações para aí reconhecer um poema. Uma coisa é o sistema não-linear, outra o discurso hipertextual, que se caracteriza pela sua não-linearidade e pela sua discontinuidade potencial. A não-linearidade, como estrutura arborescente ou multilienar em que são possíveis várias sequências, deve continuar a ser um instrumento, mas não basta para construir uma verdadeira ficção. Ou um poema[10]. A linguagem do hipertexto/hipermedia assenta no princípio da organização em unidades recombináveis de informação e o da viagem que estabelece ligações entre essas unidades de informação, dando origem a nova informação. O recurso à montagem ou à colagem, á incorporação no objecto (textual, visual, cinemático) de uma visibilização e de um retorno reflexivo às próprias condições de produção desse objecto estão presentes na literatura contemporânea desde El jardin de los senderos que se bifurcan, de J. L. Borges ao Gravity´s Rainbow, de Thomas Pynchon, ao Memorial do Convento, de J. Saramago[11]. O desafio agora já não é a hibridação genérica. A estética do video-clip, do realismo cinemático ou “televisiva” inspirada no zapping em obras como The Satanic Verses, de Salman Rushdie pouco tem a ver com as estéticas anteriores. No momento em que a inseparabilidade da palavra e da imagem só é possível electronicamente, poderá o milagre da poesia passar por outra fronteira, mesmo com o risco de se perder?


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[1] Cf. Larry Wendt,
URL: http://www.indirect.com/www/warren/surreal.html;
URL: http://www.ugcs.caltech.edu/~benedett/hyper.html;
URL: http://english.hss.cmu.edu/ctheory/ctheory.html;
URL: http://pharmdec.wustl.edu/juju/surr/Futurism/FUT-MENU.html;
cf. o sítio Pessoa: http://www./si.usp.br/art/pessoa/
e o sítio Drumond: http://www.ibase.or.br/~ondaalta/carlos.htm.

[2] José Augusto Mourão, “Para uma poética do hipertexto”, Tendências XXI, nº 2, Setembro 1997, pp.40-52.

[3] Hakim Bey, “The Temporary Autonomous Zone”, Autonomedia, New York, 1991, in Art & Design Magazine, 1995

[4] Pierre Lévy, “L´hyperscène De la communication spectaculaire à la communication tous-tous”, Les Cahiers de médiologie 1, 1996, p. 138.

[5] Derrick de Kerckhove, “L´hypertexte, texte du temps, non de l´espace, texte du ça, non du moi”, McLuhan Program, Université de Toronto, p.2.

[6] Cf. José A. Mourão, “Poesia hipertextual. Ciberpoética”, in Catálogo Interactividades, Lisboa, 1997.

[7] Vejam-se na Net as formas mais ousadas de poesia visual, na página de Kominos Konstantinos Zervos.

[8]Cf. Helena Barbas, “Cancioneiro Cibernético”, Expresso, 12.Julho.97, p. 71.

[9]Marguerite Duras, O Vice-Cônsul, Lisboa, Difel, 1984, p. 15.

[10] Jean Clément: http://www.ame.umontreal.ca/esf/MscA/etu/duranceau/site.htm; www.alexandrie.com/alex2/pagealex/litteart/littinfo/littinfo.html

[11] João Arrsicado Nunes, “Fronteirras, hibridismo e mediatização: os novos territórios da cultura”, Revista Crítica de Ciências Sociais, nº 45, Maio 1996, p. 59.